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the servant
rosas
innersmile
Não me lembrava de alguma vez ter visto o filme The Servant, um clássico do cinema inglês dos anos 60 realizado por Joseph Losey, um americano que se refugiou em Londres para escapar ao McCarthyismo. Para além de ser um marco da viragem do cinema inglês em direcção a uma cinematografia mais autoral, mais de acordo com os ventos que sopravam no cinema francês e no italiano na época, o filme é ainda habitualmente considerado como um dos pioneiros daquilo a que se pode chamar de cinema gay. Apesar de não haver qualquer referência explícita ao assunto, o filme tem uma forte componente sexual, por exemplo nas partilhas de namoradas, numa festa com subtis laivos de orgia, para além de toda uma tensão erótica que carrega todo o universo narrativo do filme. Além disso há um inegável e implícito subtexto homossexual nas relações entre os dois homens, que começa logo no facto de o filme se centrar todo nessa relação entre amo e criado, sendo as presenças femininas, não tanto meros objectos ou adereços, mas quase como os meios, a moeda que os dois homens utilizam nas suas trocas mútuas.
O filme tem argumento de Harold Pinter e isso nota-se no modo rigoroso e frio, quase geométrico, como a narrativa se dispõe, e como as relações entre as personagens, nomeadamente os diálogos, estão sempre muito carregados emocionalmente, com uma intensidade que parece estar sempre à beira da explosão. Muita desta tensão é transmitida no modo como o filme usa a arquitectura da casa, não exactamente como se fosse uma arena, mas mais um labirinto onde qualquer desvão pode ao mesmo tempo esconder fantasmas e tornar-se o lugar onde o confronto vai explodir. É, neste aspecto, uma casa ameaçadora, quase como se o filme fosse um thriller que o seu quê de sinistro.
Mas se o filme é um primor de estilo narrativo, não são menos excitantes as possibilidades temáticas que vai sugerindo. Para além da questão da homossexualidade, o que caracteriza sobretudo o filme é o facto de tratar de uma extraordinária encenação do poder. E poder em todas as suas facetas: a luta de classes, num registo mais social e político, ou a impiedosa guerra de supremacia que se estabelece sempre numa relação entre duas pessoas, num plano mais psicológico. Está sempre muito presente no filme esta ideia de que há sempre um ascendente que um membro do par exerce em relação ao outro, e de que esse ascendente é uma coisa que pode ser disputada, sem dó nem piedade, que pode ser contestada e roubada, subvertendo e até invertendo os termos em que a distribuição do poder estava formalmente estabelecida. Entre amo e criado, entre um amo caprichoso e um criado solícito, nem sempre quem detém o poder é que acha que o detém.
O que nos leva, de novo, para o terreno do sexo. The Servant pode ainda ser visto como um subtil exercício sobre a forma como o poder é disputado numa relação sexual (ou seja numa relação que use o sexo como um dos mecanismos relacionais), como uma metáfora, mais subtil mas nem por isso menos poderosa, das relações de dominação ou mesmo, no limite, do sadomasoquismo.
Só mais uma nota para dizer que tão essencial à eficácia do filme são as presenças, nos dois papéis principais, de Dirk Bogarde e James Fox. Sobretudo o primeiro, que chegou a este filme com o estatuto de galã das matinés, e o usou como plataforma para outro tipo de desempenhos e de presenças que o levaria até ao célebre Morte em Veneza, de Visconti.
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