March 2nd, 2008

rosas

barriga cheia

Fim de semana em grande.

Na sexta-feira concerto da Mayra Andrade no pavilhão multi-usos. Conhecia muito pouco na música da cantora cabo-verdiana, só aquilo que ia ouvindo por acaso. Tem uma voz potentíssima, quente e aveludada, mas que pode ganhar uma rugosidade cheia de emoção. Apesar do concerto ser quase todo cantado em crioulo, e de nunca perder a referência cabo-verdiana, a música de Mayra Andrade abre-se ao mundo, com nítidas influências da música brasileira (nas primeiras canções do concerto se não fosse a língua eu diria que se tratava de canções da MPB) ou do jazz, nomeadamente no recurso ao scat. Para além da música, Mayra Andrade é simpática, comunicativa, dança, dialoga, faz festa. A resposta calorosa do público, cortesia, digo eu, dos muitos cabo-verdianos presentes, ajudou à festa.

No Sábado fui ao Porto. À tarde fui às inaugurações colectivas das galerias de arte contemporânea da Rua Miguel Bombarda. Que animação. Acho curioso e interessante pretender fazer-se uma zona trendy, com galerias de arte e lojas ‘alternativas’, sobretudo porque é evidente uma clara adesão das pessoas. Não consegui todavia perceber se todo o hype à volta da rua é mesmo genuíno, ou se não haverá ali um toquezinho de artifício. De qualquer forma acho que uns restaurantes e uns bares ajudavam a dar corpo à coisa, pois a partir das oito da noite fica tudo deserto e perto da meia-noite, a hora a que voltei à rua para ir buscar o carro, aquilo já tinha o ar de que um tipo podia perfeitamente ser assaltado por uns agarraditos.
Quanto às exposições, muitas e para todos os gostos. As que mais gostei foram: Jorge Martins, Sebastien Le Gal, Carlos Roque, e a instalação feérica de Pascal Nordmann.

Não pode ficar por registar o gozo de vermos o nome de um amigo a assinar um trabalho exposto numa parede. Foi isso que senti, mais um toquezinho de orgulho, quando vi, numa exposição do JUP e da revista águasfurtadas uma foto do Bruno Espadana.

À noite fui ao Teatro Carlos Alberto, onde não entrava há muitos anos, ainda antes da radical remodelação que deixou o teatro completamente irreconhecível. Está muito bonito, com óptimas instalações, mas infelizmente o espaço entre filas é diminuto, o que torna a experiência de ir ao teatro numa coisa muito incómoda. Que pena.
A peça foi O Saque, de Joe Orton, com encenação de Ricardo Pais. Gostei muito, é claro, ou não fosse fã do Orton e do seu teatro. Ainda que os costumes já não sejam aquilo que eram na Inglaterra dos anos 60, a verdade é que o texto de Orton mantém um inegável sabor de subversão e transgressão. Sexo, morte e religião num tom de farsa que põe a ridículo as nossas piores hipocrisias. Ainda que discutível, achei o tom que Ricardo Pais deu à encenação muito adequado, porque mantém uma certa referência realista, essencial para a farsa resultar, mas que a estiliza para ser um exercício um pouco pop.
Aproveitei a embalagem e hoje reli o texto da peça. Li em inglês, mas fiquei com vontade de ler a tradução que a Luísa Costa Gomes fez, que me pareceu óptima, pelo menos ao ouvido.

Entretanto para terminar, fui ver o No Country For Old Men, o oscarizado filme dos irmãos Coen. O cinema lacónico e despido dos Coen, que recria com despojamento os traços essenciais dos vários géneros, serve muito bem esta história em que a ausência de sentido parece conduzir o filme para um melancólico exercício sobre o absurdo de um mundo dominado pela violência. Não sei se percebo bem a recepção crítica a este filme dos Coen, que o aclama como uma espécie de regresso às origens. Claro que numa carreira que se abeira das duas dezenas de títulos, há filmes melhores e filmes piores, mas há no cinema dos irmãos Coen uma coerência de intenções, e até de registo, que nos leva a ver cada filme quase como uma variação de um tema, ou um novo capítulo de uma mesma obra.