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rosas
innersmile
XILUNGUINE

Estou na ponte-cais à espera do último barco para a Catembe. Adeus xilunguine. Vou desaparecer. Tenho quarenta e cinco anos e um casamento desfeito. Trago num saco de mão o cadáver de tudo o que um homem me deu nos últimos vinte anos. Trago amarrotadas num lenço que prendo ao punho da camisola as lágrimas que choro há três dias e três noites. Trago soltos ao vento os filhos que não me deram e os que perdi. E espero, carregando toda essa bagagem de ternura e angústia, o último barco para o lado que não conheço, que é só o que me resta.

Prende-me à noite a mão do mufana que me aperta os dedos. E que viaja ainda mais leve do que eu, porque não tem passado. Há histórias tão incompreensíveis que só os mais perplexos as podem entender. Não perco um segundo sequer a pensar no que é o que o mufana poderá pensar acerca do que lhe está a acontecer. A mulher branca enlouqueceu. Foi xicuembo. E aos loucos, como aos cegos, seguramos-lhes na mão e mostramos-lhes o longo e glauco caminho da noite, as estrelas tremelicando a pista dos elefantes, a savana que se estende até ao fim do mundo. O mufana está sereno, com a expressão vazia de quem não tem noção de que há uma coisa chamada futuro, e é dessa serenidade que eu respiro, pousando a bagagem no cimento do cais.
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