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front runner+harlans race
rosas
innersmile

Li o The Front Runner talvez há uma meia dúzia de anos, e acabei de ler agora a sequela, Harlan’s Race, duas obras da escritora norte-americana Patrícia Nell Warren. Aqui há uns anos a The Publishing Traingle, uma associação de editoras de livros de interesse gay e lésbico convidou uma série de especialistas a elaborarem a lista dos 100 melhores romances gays e lésbicos. Ao mesmo tempo pediu aos visitantes do site para elegerem eles também as suas 100 obras preferidas. O livro The Front Runner, que não é sequer mencionado na lista da Publishing Triangle, foi considerado, no voto popular, a melhor das 100 obras escolhidas.
O que isto quer dizer é que o livro de Patrícia Nell Warren se situa claramente no campo da literatura popular, daquela que é facilmente lida por muitos leitores, e The Front Runner é efectivamente um best-seller. Mas quer dizer também que, para além do estilo ligeiro da escrita, os livros de PNW apelam a um vasto número de leitores homossexuais que vêm nos seus romances abordados muitos aspectos da sua vida.
Para além dos aspectos mais romanceados, PNW aborda, com efeito, muitos temas da agenda glbtq, desde aqueles que dizem respeito à esfera mais intima, como as dificuldades do relacionamento amoroso ou o outing, até aos grandes temas de índole mais social, como o aparecimento da SIDA, a homofobia, o casamento e a adopção, até à própria agenda política das associações activistas dos direitos dos homossexuais. Tudo isto, claro, de forma não muito pesada e séria, sempre envolvida nas peripécias do romanesco, com referências àquilo que se designa por estilo de vida (os clubes, as modas, as referências de cultura pop).
Para além do interesse em conhecer uma obra tão popular, uma das razões que me levou à leitura de The Front Runner foi a abordagem de um tema pouco comum, a relação entre a homossexualidade e o desporto. Em traços muito breves, o livro conta a história da relação entre um treinador de atletismo, Harlan Brown, divorciado e pai de filhos, em conflito com a sua própria homossexualidade, e um dos atletas homossexuais que ele treina e prepara para competir nos jogos olímpicos de 76, em Montreal. O livro acaba muito mal, em tragédia, e a sua sequela, The Harlan’s Race, foca sobretudo as consequências dessa tragédia. Enquanto o primeiro livro era essencialmente um romance de amor, a história de uma relação, este segundo é, na sua estrutura, um thriller.
Não se trata aqui da grande literatura, daquela que vai constituir o cânon da cultura literária. São romances demasiado fáceis e ligeiros, em que a escrita se quer simples e eficaz, apenas um veículo para contar uma história. Mas são livros que têm o seu interesse, apesar de a realidade que focam estar um pouco distante da nossa realidade portuguesa. Mas não se tratando exactamente de livros de história ou de ensaios, são igualmente uma forma de ficar a conhecer o que foi a história do movimento gay, enquanto fenómeno sociológico, sobretudo ao longo da década de 70 e inícios de 80, para saber quais eram, pelo menos nos EUA, os grandes temas e as principais realidades com que se deparavam os gays nesses tempos pós-Stonewall e pré-Sida.