February 24th, 2008

rosas

in the valley of elah

Fiquei um bocado surpreendido porque a maior fragilidade de In The Valley of Elah reside onde menos se esperava, dados os antecedentes de argumentista de Paul Haggis (foi o argumentista dos últimos três filmes de Eastwood, nomeadamente de Million Dollar Baby). O filme pretende reflectir sobre os efeitos devastadores no tecido social norte-americano da guerra no Iraque, nomeadamente naquilo que é mais fundador desse tecido, o patriotismo e a disponibilidade dos indivíduos para estarem ao serviço da Pátria (se bem que nos EUA faz mais sentido falar de nação do que de pátria). E escolhe fazê-lo seguindo a investigação de um pai sobre o paradeiro do seu filho, desaparecido (AWOL) logo após o regresso da sua unidade do Iraque.
E é, na minha opinião, a justaposição entre estes dois planos narrativos que falha, deixando à vista os alinhavos de uma coisa mal cosida. O resultado é que nem a componente thriller do filme é bem servida, por nunca acreditarmos muito no modo como aquela investigação progride, nem a intenção política parece eficaz, ao deixar completamente inquestionável a instituição militar, para já não falar na fundamentação política da própria guerra do Iraque, que passa totalmente ao lado do filme. Compare-se, por exemplo, com a extrema eficácia de A Few Good Men, do Rob Reiner, que conseguia ser um filme de tribunal puro e duro e simultaneamente pôr em causa a guerra ao questionar os fundamentos da instituição militar.
Nem tudo é mau, e Haggis confirma neste filme uma coisa que já sabíamos do anterior que realizou, o premiado Crash, é que é uma extrema habilidade em filmar sentimentos sem ceder a um mínimo de lamechice.
Mas o melhor do filme, é claro, é a interpretação de Tommy Lee Jones, uma coisa tão poderosa que um tipo até se arrepia com o modo como TLJ consegue carregar narrativamente todo o filme. É sempre ele que nos indica o sentido do filme, é sempre o seu rosto que nos diz o que é que verdadeiramente se passa em cada momento da história, em que direcção é que ela vai, quais os seus sobressaltos e as suas inquietações. Claro que não está sozinho, e Susan Sarandon, apesar de breve, dá sempre o contraponto à altura.
A semana passada entreguei o Óscar para melhor actor a Daniel Day-Lewis. Mas onde Day-Lewis era energia e poder, Tommy Lee Jones é uma espécie de papel mata-borrão que vai absorvendo todas as nódoas que vão manchando a alma de Hank. Por isso vou ali a correr (que a cerimónia está quase a começar), tiro a estatueta ao Day-Lewis e entrego-a àquele que é provavelmente o melhor actor do momento do cinema norte-americano.