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rosas
innersmile
Como resulta do que escrevi aqui ontem, a figura de Joe Orton teve muita importância para mim. Desde logo porque se tratou de uma descoberta pessoal, alguém cuja vida e obra eu fui conhecendo, e que cruzava vários planos de interesse. A homossexualidade, é claro, e desde logo. O meu contacto com Orton surge no momento em que mais me debruço sobre aquilo que poderíamos, só para facilitar, chamar de cultura gay. Os livros e os seus autores, os cineastas, nomeadamente a obra (e também os livros) de Derek Jarman, de quem hoje praticamente não se fala mas que foi tão importante na incorporação no mainstream cultural de um cultura marcadamente queer, a corrente vinda sobretudo dos EUA daquilo a que se chamou o new queer cinema. Foi também a fase em que comecei a ler biografias de personalidades, históricas mas não só, até desportistas como o Greg Louganis. O final dos anos 80 e principalmente a década seguinte corresponderam, não digo bem à aceitação da minha homossexualidade, já que nunca a neguei, mas a um processo pessoal de tentar perceber melhor o que era isso de ser gay. E o Joe Orton foi, neste aspecto, dos primeiros e dos mais importantes.

Mas também foi importante no contexto da história da sociedade inglesa, e da cultura pop em geral, durante a revolução dos costumes dos anos 60. A minha própria vivência de Londres tem também pontos de contacto com essas personalidades cujas vidas eu ia conhecendo. Fui à procura dos percursos de Orton em Londres, dos teatros onde estrearam as suas peças, da casa em Islington onde morou, na Noel Road.

Para além dos livros que mencionei já (a biografia de John Lahr, Prick Up Your Ears, o volume com as peças de teatro, e os diários) e do filme de Stephen Frears, vi duas peças de Orton em palco. A primeira em Lisboa, na Cornucópia, Apanhados no Divã, uma adaptação de What the Buttler Saw. E, em Londres, uma produção da peça mais famosa de Orton, Entertaining Mr. Sloane (de que também há um filme, de 1970, que eu nunca vi, e inúmeros clips no YouTube). Creio que o ano passado Ricardo Pais encenou Loot no Porto, e tenho ideia de que esse espectáculo será reposto novamente este ano.


Já agora, o título do filme e da biografia de John Lahr referem-se a uma expressão idiomática inglesa que significa 'tomar atenção'. Supostamente seria também o nome de uma peça que Orton planeava escrever, e que pretendia ser um trocadilho para o sexo anal, já que 'ears' é um anagrama de 'arse' e além disso dito depressa soa um pouco como 'prick up your rears', ou seja, em tradução livre, 'alcem esses traseiros'!


Entretanto o clip que se segue é sobre uma coisa de que falei aqui ontem, o hábito que o Orton e o Halliwell tinham de alterar as capas dos livros da biblioteca de Islington, e que lhes valeu uma condenação em tribunal e uma pena de seis meses de prisão.
Já agora referir que o Joe Orton manteve durante muito tempo um pseudónimo, ou melhor uma figura dupla, e que dava pelo nome de Edna Welthorpe, que se entretinha a escrever cartas para o Times ou para serviços públicos a apresentar reclamações. Muitas das cartas para o Times eram a dizer mal das peças do próprio Orton.