February 19th, 2008

rosas

orton 1

Estive no fim de semana passado a rever o filme Prick Up Your Ears, um dos primeiros realizados pelo Stephen Frears, e que adapta para cinema a biografia escrita por John Lahr sobre o dramaturgo inglês Joe Orton e a sua relação com Kenneth Halliwell.

Já devo ter contado aqui que descobri o Joe Orton há muitos anos, em 1991, e perfeitamente por acaso: um dia encontrei numa livraria em Coimbra (suponho que a livraria d’O Jornal, que havia no Girassolum) um exemplar à venda dos Orton Diaries. Não fazia a mínima ideia de quem se tratava, mas desfolhei o livro e percebi pelas fotos que o tema me interessava, dadas as mais do que evidentes referências à homossexualidade de Orton. Devorei o diário e quando fui a Londres comprei um volume com todas as peças de teatro que Orton escreveu e a biografia de Lahr.

Em traços breves, Joe Orton veio da sua terra natal, Leicester, para Londres, em 1950, para estudar arte dramática na celebra RADA. Logo depois conhece Kenneth, mais velho 7 anos, colega de curso e aspirante a escritor. Passam a viver juntos e tornam-se amantes. São ambos condenados a seis meses de prisão porque destroem as capas dos livros da biblioteca de Islington, substituindo-as por outras (esses livros são hoje considerados os exemplares mais valiosos da biblioteca). Com o tempo, Orton torna-se ousado e promíscuo nas suas escapadelas sexuais, e Kenneth torna-se mais reservado e retraído. Também na literatura a relação entre ambos se altera radicalmente: Orton começa por ajudar Kenneth a escrever e acaba a escrever as suas próprias peças, enquanto Kenneth praticamente deixa de escrever e limita-se a ser assistente de Joe. Entretanto Orton torna-se amigo e representado de Peggy Ramsey, uma das maiores agentes teatrais londrinas, e leva à cena algumas das suas peças mais polémicas, verdadeiras sátiras de costumes que abalam a conservadora sociedade inglesa. Em 1967 Orton está o pico da sua fama, é contratado para escrever um argumento para um filme dos Beattles. Numa manhã de Agosto, supõe-se que motivado por ciúmes amorosos, doentios mas fundamentados, e por uma certa paranóia relacionada com a dificuldade em lidar com o sucesso do seu parceiro e com o seu próprio fracasso, Kenneth Halliwell mata Joe Orton à martelada e em seguida suicida-se com uma dose exagerada de comprimidos.


O filme de Frears centra-se muito na relação entre ambos, e no modo como, como o evoluir do tempo, essa relação se deteriora quer por causa da promiscuidade de Orton, que está na fase mais alta da sua vida e quer ‘provar tudo de todas as maneiras’, parafraseando Pessoa, quer por causa da personalidade doentia de Halliwell. Por outro lado transforma o próprio autor da biografia em personagem, seguindo-o no seu trabalho de pesquisa, ao mesmo tempo que traça um paralelo entre a vida pessoal de John Lahr, cuja mulher está completamente submetida às necessidades da carreira do marido, e a dinâmica do próprio casal Orton-Halliwell.

É um filme sombrio, que tenta de algum modo reflectir uma sociedade inglesa, a dos anos 50 e inícios de 60, ainda muito marcada por uma moralidade estrita, e onde Orton, no filme como da vida, surge como uma personalidade viva, contrastante, liberalizadora, desempoeirada.

O filme foi realizado em 1987, seguiu-se a um outro filme de Frears que de igual modo abordava a homossexualidade, o famoso My Beautiful Laundrette, e tal como o seu antecessor há em Prick Up Your Ears uma certa intenção de denunciar os anos de chumbo do Tatcherismo que representaram algum retrocesso moral da sociedade inglesa no sentido de um maior conservadorismo, e que culminaria, no ano seguinte, com a infame Cláusula 28 que basicamente pretendia proibir o uso escolar de material, nomeadamente literário, que promovesse a homossexualidade. Apenas em 2003 o governo trabalhista conseguiu revogar esta lei, já que todas as tentativas anteriores de o fazer foram chumbadas na Câmara dos Lordes.


Aproveito para pôr aqui dois clips que encontrei no YouTube e que se referem ao Joe Orton. Um deles aborda a relação entre Orton e um dos maiores actores cómicos ingleses, Kenneth Williams, outro homossexual, mas este fortemente reprimido e auto-censurado. Muito por causa dos diários de Orton, li um volume de correspondência de Williams e sobretudo os seus diários, um enorme volume de 800 páginas que cobrem mais de 40 anos da sua vida. Williams, que integrou a equipa que fez os filmes da série Carry On e foi uma das mais amadas figuras da comédia e da televisão em Inglaterra, contrastava o seu papel público de comediante com uma vida atormentada e deprimida, em grande parte dada a sua dificuldade em aceitar e lidar com a sua condição de homossexual. Ironicamente, Williams viveu até tarde e morreu de doença, enquanto Orton morreu como morreu com pouco mais de 30 anos.