February 14th, 2008

rosas

whenIm64.com

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Uma destas noites estava a ler o jornal, o segundo caderno, e reparo numa fotografia dos Beatles. Era uma imagem dos anos iniciais do grupo, talvez da fase Hard Day’s Night, ainda estão todos de fato e gravata fininha, à excepção de Paul que usa uma parca, o cabelo ainda curto mas já ameaçando o desalinho que viria em breve. À esquerda da foto está Paul McCartney, três quartos, uma perna mais avançada, o rosto voltado para a direita, na direcção dos restantes membros do grupo. Na outra extrema, à direita, está Ringo Starr, de lado, com o rosto ligeiramente voltado para cima, olhando para um ponto que fica ligeiramente à esquerda da câmara. Ao lado de Ringo está Lennon, de frente, e olhando directa e frontalmente na direcção do fotógrafo. Finalmente, entre John e Paul está George Harrison, o corpo na posição sempre um pouco tímida que lhe era habitual, o rosto fechado, olhando para o chão.

O rosto de George Harrison. De repente percebi que o rosto da foto não era de facto o rosto de George Harrison. Era de um homem vagamente parecido com George, mas consideravelmente mais velho, com traços endurecidos próprios da idade, e que eram de todo inconfundíveis com os do rosto ainda fresco de George na altura em que aquela fotografia tinha sido tirada. Aliás, apesar dessas parecenças vagas, via-se perfeitamente que era um rosto mais largo, a testa mais larga, as maçãs do rosto mais salientes, o queixo mais quadrado do que o de George, e, por isso, a boca mais rasgada.

Fiquei intrigadíssimo. Desde logo porque no texto da curta notícia que a foto ilustrava, anunciando o lançamento de mais uma canção inédita, não havia a mínima referência à fotografia, muito menos à estranha circunstância de George Harrison não ser George Harrison. Tentei pôr o jornal de lado, e ler o suplemento desportivo, mas não conseguia parar de pensar na misteriosa fotografia. Levantei-me, dei uma volta pela casa, fui à varanda fumar um cigarro, pus um filme no dvd, tudo em vão. Sempre o sortilégio da fotografia dos Beatles a não me dar um minuto de distracção.

Decidi fazer uns telefonemas, recorrer a alguns amigos que me poderiam ajudar a esclarecer um assunto tão confuso e intrigante. Liguei em primeiro lugar para a minha amiga Clara, por duas boas razões: ela também compra o mesmo jornal, e por isso era a pessoa indicada para confirmar se era mesmo o George Harrison que aparecia na fotografia, mas principalmente é a minha melhor amiga, uma amizade intensamente intima e cúmplice, e por isso era a única pessoa a quem eu não tinha vergonha de fazer uma pergunta tão estranha que, aos ouvidos de qualquer outra pessoa, seria sempre percebida como um claro sinal de insanidade ou perturbação mental.

E provou-se que eu tinha razão. A primeira coisa que a Clara exclamou quando lhe expus o meu problema, ainda antes mesmo de ir consultar o segundo caderno do jornal, foi: «Tu não estás bom da cabeça!» Mas obviamente que ficou excitadíssima e largou o telefone para ir a correr ver a fotografia. Quando voltou ao telefone o seu tom era de enorme gozo: «Tu não estás mesmo bom da cabeça. As coisas que tu inventas. Claro que é o George Harrison, todo ele, com aquele ar de lingrinhas. Mas onde raio é que tu vais desencantar estas coisas?!»

Suportei estoicamente o gozo, que já tinha antecipado. Quando finalmente sossegou, pedi-lhe para fazer o download da foto a partir do sítio na Internet do jornal e para mo mandar por e-mail. O acesso ao site do jornal é pago e, como a Clara era assinante eu tinha decidido poupar esse dinheiro a pedia-lhe os clips do jornal sempre que precisava de alguma coisa. Anuiu, apesar de afirmar «Bom, já que insistes nessa palermice, ok!» Quando finalmente chegou o mail com o ficheiro da fotografia em anexo, desligámos. Imprimi a foto e pu-la ao lado da do jornal. Era obviamente a mesmíssima imagem, com a pequena diferença de que na da versão on-line do jornal o George Harrison aparecia com o seu rosto normal, de jovem adulto, e não com a face envelhecida da fotografia do jornal. Tudo o resto era igual: as roupas, a posição do corpo, o rosto fechado, voltado para o chão.

Decidi que a única explicação para o fenómeno era de que se tinha tratado de um acidente de impressão, e que, por um daqueles acasos improváveis e absolutamente fantásticos, a mancha impressa dera ao rosto de Harrison os traços de alguém que seria muito parecido com ele, mas mais velho e mais largo. Mais uma vez tentei afastar o espírito da fotografia e da insidiosa obsessão que me provocou. Mas, claro, passados poucos minutos a dúvida começou de novo a instalar-se: mas se fosse erro de impressão então o normal era ter afectado toda a tiragem do jornal e não apenas um exemplar. Ora a Clara tinha ido confirmar ao seu exemplar do segundo caderno do jornal e, o gozo tinha começado por aí, a fotografia do seu exemplar era normalíssima.

Decidi então ligar ao Zé-Tó. Apesar de não estarmos muitas vezes juntos, o Zé-Tó é um amigo antigo, dos tempos do liceu. Tem uma personalidade maníaca, muito obsessiva, um daqueles tipos cuja compulsividade se situa na fronteira entre a normalidade, seja lá isso o que for, e a patologia. Foi uma decisão impulsiva, a de lhe telefonar, pensei que a sua obstinação seria o ideal para me ajudar a desvendar esta história estranha. Só no preciso momento em que ele atendeu é que me passou pela cabeça o perigo de envolver o Zé-Tó nesta história: para além de lhe criar uma nova obsessão, o Zé-Tó nunca mais me deixaria em paz, enquanto não arranjasse uma explicação qualquer que aplacasse a sua mania.

Quando percebeu que era eu que estava ao telefone, o Zé-Tó disparou num monólogo rápido e incessante. Para o Zé-Tó não há perguntas retóricas de cortesia, e quando lhe perguntamos ‘o que tens feito?’ ele passa mesmo os longos minutos seguintes contando com minúcia tudo o que tem feito. Muitas vezes terminamos uma chamada sem que eu tenha sequer oportunidade de falar na razão do telefonema. Mas desta vez também eu estava sob o ansioso signo da obsessão, e por isso na primeira pausa que o Zé-Tó fez para respirar eu interrompi-o e contei-lhe a razão da minha inquietação.

Como eu calculava, o Zé-Tó levou-me completamente a sério, nem por um momento duvidou que a fotografia do George Harrison tivesse o rosto alterado, e, como é óbvio, ficou interessadíssimo no assunto, prometendo fazer uma investigação. Começou então uma sucessão de telefonemas entre mim e o Zé-Tó, que durou praticamente toda a noite. Por volta das seis da manhã, tinha eu acabado de adormecer, exausto, no sofá, soou uma estridente campainhadela que, tenho a certeza, acordou metade dos moradores do prédio onde habito. Estremunhado, e mesmo um pouco assustado com a impropriedade da hora, levantei o auscultador do intercomunicador para descobrir, como era de esperar, a voz do Zé-Tó do outro lado.

Passados segundos, ouvi o barulho do elevador a parar no meu andar e tinha o Zé-Tó, em evidente estado de excitação, à minha porta. «Descobri tudo, está resolvido o mistério». Olhei-o incrédulo! Pediu-me para ver a foto do jornal, que analisou demoradamente, e pela primeira vez vi-lhe no olhar uma certa tranquilidade, que se transformou em perplexidade quando levantou os olhos na minha direcção. «Não percebo, esta fotografia é perfeitamente normal. O que é que se passa?» Não pode ser, exclamei. «Repara. Apenas está um pouco esbatida, mas de resto é perfeitamente normal. Este é de facto o rosto do George Harrison». Senti-me incomodadíssimo, e uma onda de rubor aqueceu-me o rosto. Não pode ser, repeti. Mas quando peguei na página do jornal, tive de concordar que não havia qualquer dúvida: estranhamente esbatida, sobretudo na zona onde aparecia o George Harrison, para mais tratando-se do jornal da véspera… que digo eu?, para mais tratando-se do próprio exemplar do jornal que ainda há poucas horas eu jurava a pés juntos trazer uma fotografia dos Beatles onde o rosto de Harrison aparecia transfigurado no rosto de um homem velho.

«Mas, espera, isto é mesmo intrigante. Vamos ao teu computador?» Havia no tom de voz do Zé-Tó uma segurança, até uma serenidade, que eu não lhe conhecia. Em vez do tipo nervoso, com tiques, que eu sempre tinha conhecido, estava calmo e tranquilo como eu nunca tinha visto. Depois de ligarmos o computador e de transferir uns ficheiros da sua pen-drive, o Zé-Tó abriu o browser e explicou-me: «Descobri este site fantástico na net, e tenho a certeza de que ele tem qualquer coisa a ver com a fotografia tal como a descreveste». O Zé-Tó digitou o endereço do site: www.whenIm64.com. Na página de abertura era pedido que se fizesse o carregamento de uma foto. «Tens aqui no computador uma fotografia tua, como a do BI ou em que se veja bem a cara?» Indiquei-lhe a pasta do computador onde tenho as fotografias, o Zé-Tó escolheu uma das fotos, fez o upload e o resultado apareceu no monitor passados breves minutos: uma fotografia do meu rosto envelhecido, supostamente a que terei quando chegar aos sessenta e quatro anos.

«Repara agora nesta coisa espectacular: podes seleccionar aqui o rosto de uma celebridade e ver o aspecto que ela terá quando for velha». Estávamos a pensar no mesmo, como é óbvio, e por isso o Zé-Tó fez deslizar o cursor até seleccionar o nome do George Harrison. O resultado foi decepcionante, pois apesar de haver determinados traços em comuns, o rosto envelhecido de Harrison não era de todo coincidente com o que eu me lembrava de ter visto no jornal.

Foi então que me lembrei da foto que a Clara me tinha mandado por mail. O Zé-Tó abriu o ficheiro, mas como a foto não era apropriada teve de lhe fazer um pequeno tratamento prévio. Abriu o photoshop, seleccionou apenas o rosto de Harrison e destacou-o do resto da fotografia. Depois aumentou ligeiramente o tamanho da imagem e retocou-a para disfarçar as deformações resultantes da ampliação. Em seguida carregou o novo ficheiro. Ficámos uns momentos à espera, e devo confessar que eu estava em tal estado de ansiedade que sentia o coração a bater em ritmo apressado. Aos poucos a imagem começou a surgir no monitor: era tal e qual o rosto de George Harrison como eu o tinha visto na fotografia do segundo caderno do jornal.