February 13th, 2008

rosas

running with scissors

Estive ontem a ver o dvd do filme Running With Scissors, que encomendei na Amazon inglesa mas com legendas em português, apesar de, tanto quanto sei, não ter sido lançado por cá. Eu gosto muito do Augusten Burroughs, que escreveu o livro no qual o filme é baseado (e que participou na produção do filme tendo um cameo no final), e por isso tinha muita curiosidade em ver esta adaptação do seu livro mais famoso, precisamente aquele que contém as memórias da sua infância.
Em breves traços, os pais de Augusten põem termo a um casamento violento, a mãe quer ser poeta, sofre de perturbações mentais, e entrega o filho, adolescente de 13 anos, à família do seu psiquiatra. No seu novo lar Augusten experimenta a liberdade total (de não ir às aulas, de comer o que quer, de não ter regras nenhumas) e tem uma relação pedófila com o filho adoptivo do psiquiatra, um seu doente de trinta e tal anos. A lista de extravagâncias passadas na família do psiquiatra é demasiado extensa, e completamente demente, para enumerar aqui.
O filme foi realizado por Ryan Murphy, o criador e autor da série de televisão Nip/Tuck, e tem um cast estrelar: Annette Bening, Brian Cox, Alec Baldwin, Joseph Fiennes, Jill Claybourgh e Gwyneth Paltrow (na altura casada com Brad Pitt, que é co-produtor), entre outros. Apesar destes créditos, o filme foi um enorme fracasso e percebe-se porquê: o filme nunca consegue fazer grande coisa com a história e com as personagens, arrasta-se com maior ou menos penosidade à procura de uma saída para essa falta de sentido. E falta ao filme uma coisa que no livro é absolutamente essencial: o sentido de humor.
Uma das coisas que foi muito discutida nos EUA aquando da estreia do filme (mais do que na altura da edição do livro, o que é natural dado o carácter mais popular do cinema) foi a fidelidade das memórias de Augusten Burroughs à realidade da sua infância. Ou seja, familiares de Augusten e do psiquiatra chegaram-se à frente contestando a veracidade do relato de Burroughs. Onde eu quero chegar é que no livro essa veracidade era completamente secundária, porque o sentido de humor fornecia à história todo o sentido e toda a coerência. Não interessava muito se aquilo era verdade ou não, porque mesmo não sendo continuava a ser, graças à perspectiva do autor e ao seu humor, uma história bem contada. É isso que não há no filme, o que deixa tudo, história e personagens, completamente à deriva.
Mas se o filme é um fracasso, tem todavia dois ou três aspectos interessantes. O primeiro é a interpretação de Annette Bening, que, muito mercê dos esforços da actriz, é a única personagem do filme em que acreditamos, mesmo quando das suas acções resultam as consequências mais monstruosas. O outro aspecto a salientar é o sentimento de profunda tristeza que o filme é capaz de transmitir, uma tristeza muito próxima da desistência, o que o torna a evitar pelos espíritos mais sensíveis (e muita dessa tristeza tem, mais uma vez, a ver com a forma como Annette Bening dá forma à personagem de Deirdre).
Outro aspecto muito positivo do filme foi uma extraordinária utilização da banda sonora, sobretudo das canções que ajudam a situar a história na época, os anos 70. Raras vezes há uma selecção de canções tão feliz, não só por serem bonitas, mas sobretudo porque vão sempre fazendo um comentário inteligente ao que se passa na acção, ilustrando ou dialogando com as situações, abrindo ou sugerindo outras direcções. Sirva de exemplo a canção que acompanha o genérico final, o clássico dos Crosby, Stills and Nash Teach Your Children; considerada um dos hinos da concepção hippie, a canção ganha, passada assim em comentário final a uma história tão triste e tão demente, um tom de ironia amarga e magoada que é o epíteto perfeito daquilo a que acabámos de assistir.



You who are on the road
Must have a code that you can live by
And so become yourself
Because the past is just a good bye.

Teach your children well,
Their father's hell did slowly go by,
And feed them on your dreams
The one they picked, the one you'll know by.

Don't you ever ask them why, if they told you, you would cry,
So just look at them and sigh and know they love you.

And you, of tender years,
Can't know the fears that your elders grew by,
And so please help them with your youth,
They seek the truth before they can die.

Teach your parents well,
Their children's hell will slowly go by,
And feed them on your dreams
The one they picked, the one you'll know by.

Don't you ever ask them why, if they told you, you would cry,
So just look at them and sigh and know they love you.



[Juntando o título do filme e o da canção, resulta que devemos ensinar as crianças a correr com tesouras!]