February 12th, 2008

rosas

camden town

Na cerimónia de entrega dos Grammys, na noite de domingo, a Amy Winehouse (que sempre que a vejo me faz lembrar a Vicky Pollard do Little Britain) quando foi receber o seu prémio dedicou-o a Londres anunciando que Camden Town ain’t burning down. Amy referia-se ao enorme incêndio que no dia anterior tinha destruído um dos mercados de Camden.

Esse mercado situa-se perto do canal na zona de Camden Lock, o mercado de rua mais popular de Londres, tendo destronado Portobello como o mercado que mais turistas atrai, excepto talvez para antiguidades.

A minha casa em Londres fica um pouco mais a sul, ao lado da estação de Euston, à distância de um curto passeio a pé de Camden High Street, e por isso o bairro de Camden Town sempre foi um pouco o centro da minha vida quotidiana: supermercado, jantares em restaurantes gregos, pastelarias (numa altura em que ainda não havia a moda dos cafés ‘de marca’, já havia uma certa cultura de café em Camden), café e mercearia portuguesas, cinemas (havia uma sala antiga e enorme quase em frente à estação de Camden Town, não me lembro se era o Scala ou se era um Electric Cinema), correio, livrarias (a Compendium era uma livraria fantástica de livros em segunda mão). Quando comecei a ir regularmente a Londres o mercado ainda não era uma atracção turística que é hoje e por isso era o nosso destino habitual dos sábados de manhã). O primeiro casaco de cabedal que comprei foi numa banca do mercado de Camden Lock, e nesse dia senti-me o doente de cancro mais cool do mundo!

Camden Town sempre foi um bairro muito especial, com uma população predominantemente jovem, relativamente pobre, no centro de Londres mas já a fugir para a periferia, com grandes tradições na cena musical londrina (tem várias salas de concertos e muitos pubs com música ao vivo).

Além disso Camden Town era também, nesses anos antes de Old Compton Road, no Soho, uma das zonas de Londres onde havia uma maior visibilidade gay (as outras eram Earls Court e o East End, ao pé da estação de Liverpool Street). Mesmo a meio de Camden High Street, esntre as estações de metro de Mornington Crescent e de Camden Town, ficava, e ainda fica, o Black Cap, um dos mais antigos pubs londrinos de frequência maioritariamente gay (e, já agora, uma das capitais londrinas dos espectáculos de travesti). Mais acima, logo a seguir à estação de Camden Town ficava a Compendium, que tinha uma excelente secção de literatura gay, mas que, segundo li algures, parece que fechou. E do outro lado da rua, mesmo antes de chegar à ponte sobre o canal, ficava a primeira sex shop especializada num público gay que eu conheci, a Zipperstore, que ainda existia, mas com outro nome, da última vez que fui a Londres, há 5 ou 6 anos. Comprei muitos livros e muitas revistas na Zipperstore, nomeadamente livros do Samuel Steward, os que assinava sob o pseudónimo Phil Andros. Também comprei alguns filmes em vhs, mas poucos porque como na época a pornografia era proibida em Inglaterra, ou pelo menos a pornografia que mostrasse os órgãos genitais, os vídeos oficiais eram censurados; por isso eu preferia comprar os vídeos nas lojas mais sleazy do Soho, que vendiam os filmes originais, sob o balcão, em embalagens de cartolina branca embrulhadas em sacos de papel pardo, o que acrescentava sempre o elemento de surpresa, pois raramente o filme que vinha lá dentro correspondia ao que tinha sido escolhido.