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clouds and eclipses
rosas
innersmile


Repare-se no seguinte excerto:

"The fools were in possession of the beach today. They sat watchfully beneath umbrellas, admiring the cold and radiant angels who could, they believed, exorcise the graceless shadow of the years and with firm flesh recreate youth and the sense of permanency, or its illusion. I suppose by now I know the hearts of the fools almost as well as I know my own and sometimes I am frightened when I watch their sad courtship of the treacherous angels for I see in them my own eventual fall from beloved angel to deluded monster. I too shall be old. I shuddered as I stepped over the ruined towers of a sand castle: yes, the beach was changed; I wonder, will it change again one day?"

É impossível escrever-se de forma mais elegante e concisa, e descrever com um rigor que chega a ser cruel a angústia do envelhecimento e essa patética necessidade de procurar os corpos jovens dos outros como antídoto ao veneno da nossa própria morte.
Trata-se de um excerto de um conto, Three Stratagems, que integra Clouds and Eclipses, uma colecção de todos os contos da autoria de Gore Vidal, escritos na juventude literária do escritor, que, para além dos famosos ensaios, foi sobretudo um escritor de romances e não de short stories.
Sete destas histórias já tinham sido publicadas, mas Vidal decidiu republicá-las quando uma investigadora de uma universidade norte-americana, trabalhando nos arquivos do escritor, descobriu uma história inédita, precisamente a que dá título ao presente volume. Trata-se de um conto escrito na mesma fase dos restantes, durante uma época em que Vidal conviveu, e viajou, com Tennessee Williams, e baseia-se uma história de infância do autor de A Streetcar Named Desire, passada com um seu avô. Williams terá pedido a Vidal para não publicar a história pois poderia ser reconhecida pela sua mãe, e Vidal correspondeu ao pedido e acabou por perder o rasto do conto.
São oito contos notáveis, escritos numa linguagem de fazer chorar de tão bonita (como no trecho acima), capaz de, em meia dúzia de frases, criar personagens e enredos e ambientes. Os temas são diversos, alguns têm um contexto homossexual, explícito ou apenas sugerido, e pareceu-me que poderá haver num ou noutro traços biográficos do próprio escritor. Pelo menos num dos contos, composto de páginas de um diário abandonado, há uma referência muito breve e passageira a um amor de adolescência, Jimmy, cujo nome e as circunstâncias da sua morte, numa batalha do Pacífico durante a Segunda Grande Guerra, são coincidentes com as memórias que Gore Vidal contou acerca da sua primeira paixão amorosa, em Palimpsest, a primeira parte das suas memórias.

Com excepção de Clouds and Eclipses, os restantes sete contos já foram publicados em português, como complemento à novela A Cidade e o Pilar, numa edição das Publicações Dom Quixote. Mas deu-me muito prazer lê-los em inglês, e foi quase como descobri-los pela primeira vez.

O meu conto preferido é The Zenner Trophy, que relata a história de um aluno, prestes a ganhar um prémio por ser um atleta extraordinário, e que é expulso de uma universidade privada e exclusiva, por prática de actos homossexuais com outro estudante. O que é admirável no conto não é tanto a história, mas sobretudo a própria estrutura do conto e o modo como a linguagem vai revelando uma outra verdade subentendida. É dividido em duas partes, cada uma correspondendo a uma conversa. Na primeira o reitor conversa sobre o caso com o professor tutor do aluno, e na segunda o tutor comunica ao aluno a sua expulsão e acompanha-o enquanto ele arruma as suas coisas e se prepara para abandonar a escola e ir ter com o colega com quem tem um caso. E o extraordinário é que o conto faz uma total inversão dos sentimentos: o aluno está um pouco indiferente em relação à sai própria situação, e anseia ir ter com o colega, enquanto o professor, secretamente apaixonado pelo seu aluno, está verdadeiramente dilacerado com a situação.

[Os tolos hoje dominavam a praia. Sentados debaixo dos toldos, admiravam com atenção os anjos frios e radiosos que poderiam, segundo acreditavam, exorcizar a sombra deselegante dos anos, e, com a carne firme, recriar a juventude e o sentido de permanência, ou a sua ilusão. Suponho que, neste momento, conheço o coração dos tolos quase tão bem como o meu próprio, e por vezes assusto-me quando observo a corte triste que fazem aos pérfidos anjos, porque neles vejo a minha própria e eventual queda de anjo amado para monstro iludido. Também eu envelhecerei. Senti um arrepio quando pisei as torres arruinadas de um castelo de areia: sim, a praia mudou; pergunto-me se um dia ela mudará de novo?

Já agora, e para comparação, fica aqui a tradução da edição da Dom Quixote para o mesmo trecho que traduzi acima:

Os loucos hoje possuíam a praia. Sentavam-se atentos sob os chapéus de sol, admirando os anjos frios e radiantes que podiam, segundo eles acreditavam exorcisar a sombra desgraciosa dos anos e com a carne firme recriar a juventude e o sentido de permanência, ou a sua ilusão. Creio que agora já conheço tão bem o coração dos loucos como o meu e por vezes tenho receio quando vejo a corte triste dos anjos traiçoeiros porque vejo neles a minha queda eventual de anjo caído a monstro iludido. Também eu vou ficar velho. Estremeci quando pisei as torres arruinadas de um castelo de areia: sim, a praia tinha mudado; e fico a pensar, irá mudar de novo?

Não é para me gabar, mas acho que a minha tradução está melhor e mais bonita!]