?

Log in

No account? Create an account

atonement
rosas
innersmile


Quando se escreve há sempre ali uma barreira a separar a realidade da matéria literária. Pode ser uma simples película, fina e até transparente, mas está lá e é intransponível. Quem escreve tem sempre a noção exacta do que é que, no que está a escrever, ainda é a realidade ou já se trata de resultado da própria escrita; o que é que ainda é o acontecimento tal como o vimos ou vivemos ou sentimos, ou o que é que já é o produto da nossa percepção tratado pela mediação da palavra. Mesmo quando se planeia, quando se traça uma arquitectura mental, só a palavra escrita tem o poder transformador.

Do que mais gostei em Atonement (Expiação), de Joe Wright (o realizador de Pride and Prejudice), foi precisamente quando o filme se instalava nessa estreita camada entre a realidade e a literatura, ao ponto de nós não conseguirmos, se aceitássemos o jogo que nos era proposto, separar o que eram de facto as peripécias por que passavam os principais protagonistas e o que era o modo como Briony recebia essa realidade. Achei delicioso o pormenor (e como se sabe deus está nos pormenores) de haver determinados ruídos, sobretudo o matraquear da máquina de escrever, que começavam no plano narrativo mais linear e se inseriam depois na banda sonora, precisamente porque nos davam essa noção de que estávamos já numa outra dimensão narrativa.

Gostei particularmente de toda a primeira parte do filme, até à cena em que Robbie é preso. Acho que está soberbamente realizada, com uma extrema precisão narrativa, sem uma folgazinha, nada. Tudo encaixa perfeitamente, as sequências têm um apurado sentido do ritmo, mesmo quando a narrativa não é linear, quando se repetem sequências de diferentes perspectivas. O filme nunca pousa, nunca esmorece, e transporta-nos cada vez para mais dentro da história, sempre de uma forma rápida e segura. É, sem dúvida, um belíssimo momento de cinema.
Também gostei muito de toda a sequência de Dunquerque, que achei tão cinematográfica que supus, erradamente, que tinha sido filmada em estúdio, mas afinal parece que foi filmada em cenários reais. Esta sequência tem uma qualidade feérica, onírica, excessiva, e que mais uma vez acentua o aspecto de que o que estamos a ver pode não ser bem a realidade do que se passou. Mas, atenção, porque se toda a sequência tem uma característica quase teatral, nunca deixa de ser, do ponto de vista da narrativa, puro cinema, como o demonstra o longo travelling que acompanha a deambulação dos ‘nossos’ três soldados pela praia e pelo cais. Apesar de ser um pouco pesada, muito carregada e nem sempre com o melhor sentido da economia narrativa, acho que é a sequência mais bela do filme.


Durante a guerra a personagem Cecília vive em Londres, em Balham, uma cidade de subúrbio a sul da capital inglesa. Quando termina o único e breve encontro entre os dois amantes, Robbie acompanha Cecília até à paragem e quando Cecília embarca ele corre atrás do autocarro. Trata-se do nº 19 que, segundo indicação na bandeira, vai para Balham, via Clapham. O autocarro 19 era um daqueles (juntamente com o 22) em que eu mais viajava, sobretudo ao fim da tarde ou à noite, para vir de Chelsea (de King’s Road ou de Sloane Sq) para o centro, Piccadilly, Oxford St. ou Tottenham Court Rd, onde depois apanhava o 10 ou o 73 para casa. O nome de Balham é-me familiar porque era uma das estações na linha de comboio para Sutton, no Surrey, onde eu tinha de ir quase todas as semanas.
Achei um pouco estranho que o 19 viesse tão lá do fundo, da Balham, e fosse até Islington. Pesquisei na net, e afinal a rota do 19 está definida desde 1949, e começa em Battersea, logo do outro lado do rio, a seguir a Chelsea, e sempre vai até Islington (onde, já agora, fui uma vez, a reconstituir os percursos do Joe Orton, de quem falarei aqui proximamente). O que significa que no tempo histórico do filme ou a rota era outra ou não era atrás do 19 que Robbie devia correr.
A vantagem é que fiquei a conhecer a história do bombardeamento da estação de metro de Balham, que no filme tem bastante importância para o desfecho do enredo, e que de facto aconteceu durante o blitz, em Outubro de 1940, tendo causado mais de 60 mortos e perto de uma centena de feridos.