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estação seca . 12/25
a_seco
innersmile
12

Sempre prisioneiro do dia burocrático. À tua volta, as paredes baças de uma espera interior. Nem a janela te rasga hoje para outros horizontes. És o tosco de uma ruína. O esboço esborratado de um cemitério de ilusões. A chuva que cai por fora é a chuva que te seca por dentro, o osso com saudades da raiz. Vives intensamente o sono de chumbo que te pesa nas pálpebras em cada segundo que passa, em cada segundo que passas. Afastas a perspectiva do futuro, dói-te só de pensar que a vida pulsa noutras ruas, ruas que se afastam de ti como alamedas iluminadas ao sonho de outro sol, e que sentes como uma faca que te esventra a dolência em que encerras o teu sangue. Arrastas-te em direcção à próxima paragem dos imóveis ponteiros do relógio. Sonhas com a possibilidade da fuga, como se fosse a única saída aceitável para a tua falta de determinação.

Lá fora há carros, e carros que te poderiam levar para outros lugares. Lá fora há gente, há uma rapariga que murmura uma canção, há dias inteiros que não se esgotam entre muros baços, há risos que se parecem com outros risos, e mesmo os risos que se parecem com lágrimas são preferíveis às lágrimas secas que te esqueces de chorar, desatento como estás no teu desmemoriado esquife. És um quotidiano de esquecimento, não vá o ferrão do arrependimento aninhar-se no teu olho.
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