January 30th, 2008

rosas

o elogio de campos

Como em política não há injustiças, o afastamento de Correia de Campos do ministério da saúde tem de ser considerado um erro. Campos sai vítima da necessidade de aliviar a pressão da rua, do cerco que na opinião pública se ia estreitando para testar a capacidade de resistência do primeiro-ministro. Isto, claro, na versão melhor, porque a pior é impensável, a de que Campos sai vítima de Litério, ou mesmo da avó de uma jornalista!
Faço uma declaração de interesses: fui aluno de Campos; mas se detestei o professor e antipatizo com a pessoa, a verdade é que admiro a maneira de Campos estar na política e particularmente no governo. O Campos político tem duas características muito raras na nossa classe política.
A primeira é que é um tipo muito preparado, que conhece muito bem o sector e que tem ideias e convicções em relação a ele. Ou seja, não anda, ou tem condições para não andar, a reboque de assessores, conselheiros, lobbistas e compagnons de route. Não foi a política que o fez, nem precisa da política para se fazer. Isto dá aos espíritos uma independência valiosa, que permite fazer compromissos (a essência do negócio político) sem perder perspectivas. Que Campos era um tipo preparado notou-se, por exemplo, no último Prós e Contras em que compareceu, em que era, à vontade, e de todos os presentes na sala (e não só no palco) o que mais sabia o que andava a fazer. Que Campos não perdia perspectivas notava-se, por exemplo, no modo como nunca perdia de vista o essencial face aos acessórios.
A outra característica de Campos que admiro é a falta de demagogia. Estranhamente, a opinião pública e os jornalistas (ainda hoje de manhã ouvi na rádio um a dizê-lo) tomavam isso por rudeza e arrogância. As suas tiradas infelizes, as suas respostas desabridas, não passavam disso, de tiradas infelizes, de falta de subtileza e… lá está, de demagogia. Mas não ofendiam nem, sobretudo, desrespeitavam. Porque, graças à primeira característica que apontei, Campos irritava-se, tropeçava no mau feitio, mas nunca perdia perspectivas nem perdia de vista o essencial.
Por isso o afastamento de Campos é um erro, porque perdemos no governo um dos poucos ministros que sabia o que andava a fazer. Mas é-o sobretudo porque não havia razões políticas para o afastar (como havia, por exemplo, em relação a Mário Lino). Campos é sacrificado apenas porque é necessário aliviar a pressão. Ou seja, ficámos a conhecer o limite do primeiro-ministro. E Sócrates devia saber que de cada vez que o ficamos a conhecer, o seu limite baixa um bocadinho.