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memórias em voo rasante, jacinto veloso
rosas
innersmile

Fiz uma pesquisa no Google sobre o livro que estou a ler, Memórias em Voo Rasante, de Jacinto Veloso, e fiquei surpreso com a quantidade de referências que apareceram. O que diz bem de como este livro aborda temas ainda muito candentes na história recente, como sejam o fim do império colonial, a descolonização e os novos países africanos de língua portuguesa, no caso em apreço Moçambique.
Jacinto Veloso foi um piloto da força aérea portuguesa que em 1963 desertou de forma espectacular, pilotando um avião militar que fez rumar para a Tanzânia. Ligou-se de imediato aos movimentos que lutavam contra o domínio colonial, foi dirigente histórico da Frelimo, próximo de Samora Machel. Após a independência de Moçambique foi o homem responsável pela inteligência e segurança (ou seja, o patrão da secreta) tendo desempenhado sempre um papel importante em missões de cariz internacional, quer políticas quer económicas.
Trata-se como o título indica de um livro de memórias, e vale a pena destacar duas ou três notas. A primeira é de uma agradável surpresa pela própria edição de umas memórias sobre um tema tão complexo e que é mais dado a segredos e confidências do que propriamente a relatos escritos de experiências vividas. Claro que podemos sempre achar que um autor de um livro de memórias pretende sobretudo limpar a sua imagem, apresentando uma versão dos factos que lhe seja favorável. Ainda que isso pudesse ser assim seria sempre de louvar a iniciativa de apresentar o testemunho pessoal de factos e acontecimentos tão importantes por parte de quem foi neles protagonista. E o autor destas memórias foi de facto um protagonista da história da África austral nos últimos 40 ou 50 anos, de modo que o seu testemunho é precioso. E se é verdade que nem tudo é contado, também o é que mesmo através daquilo que fica de fora ou é apenas abordado de forma vaga, podemos tirar algumas ilações.
É óbvio que o testemunho de Jacinto Veloso é parcial, e as suas interpretações por vezes são tão simplistas que a única dúvida é saber se o autor é ingénuo ou se nos toma a nós, os leitores, por ingénuos. Mas sempre há que conceder que nem Jacinto Veloso é historiador nem este é, já nem digo um livro de história, mas sequer um ensaio. Trata-se de uma memória, e cabe-nos a nós, que a lemos, dar ao relato o devido valor. Claro que se fosse um chorrilho de asneiras ou mentiras, se não passasse de uma visão fantasista, não teria interesse nenhum, mas julgo que está muito longe de ser o caso. Trata-se, a meu ver, de uma obra muito interessante, de um testemunho valiosíssimo sobre um período histórico em que Portugal foi parte interessada. Claro que o livro apela sobretudo a todos os que de algum modo viveram os aspectos relacionados com a descolonização (quer dizer, já não falando nos principais interessados, que serão os moçambicanos), mas de todo o modo contém matéria que aproveitará a quem se interesse pela história de Portugal e pela da África austral, nomeadamente daquela onde Portugal marcou presença.

Há muitos aspectos da história recente de Moçambique que desconheço, e por isso não posso, pessoalmente, aquilatar do rigor do relato de Jacinto Veloso. Mas como já referi há alguns aspectos em que a memória de Jacinto Veloso pecará por ser um pouco selectiva, ou mesmo que não passe de uma vaga ideia. E daí…
Estou por exemplo a lembrar-me de todas as referências a uma coisa que eu conheço razoavelmente, porque a vivi, e que foi o êxodo dos portugueses, ou, mais genericamente, dos brancos, nos meses que antecederam a independência e logo a seguir a ela. As justificações que o autor aventa para esse êxodo são sempre demasiado simplistas, tendo a ver com boatos ou com determinados acontecimentos isolados. Quando de facto nunca foram criadas condições, nomeadamente de segurança, para os portugueses brancos permanecerem em Moçambique. Não acredito em Jacinto Veloso quando ele afirma que essa saída em massa dos portugueses não foi antecipada pelas novas autoridades moçambicanas. E até o tom um pouco desprendido com que Veloso se refere ao assunto me faz pensar que, pelo menos durante uma determinada fase, e segundo o critério dos seus governantes, não havia lugar no Moçambique independente para uma população branca, de classe média, urbana, feita de comerciantes e funcionários. E não por uma questão de racismo, mas apenas porque não havia lugar para ela no regime comunista planeado para o país.
Há outros aspectos em relação aos quais custa a acreditar que Jacinto Veloso conte no livro tudo o que sabe, sendo o principal deles as circunstâncias em que se verificou a queda do avião que vitimou o presidente Samora Machel e muitos outros membros da sua comitiva.
Aliás a este propósito devo dizer que o que mais me custou a aceitar no livro é a facilidade com que o autor "culpa" a antiga União Soviética por tudo o que de mau aconteceu em Moçambique. Provavelmente é verdade, e a causa de as coisas não terem corrido bem nos primeiros 15 anos da vida do país terá muito a ver com essa ligação da República Popular de Moçambique ao antigo Bloco de Leste. Mas as autoridades moçambicanas, entre elas o próprio autor das memórias, não podem sair ilesas desse assacar de responsabilidades, como se fossem meninos de coro enganados pelos irmãos Metralha! Se "houve aqui alguém que se enganou" (para retomar uma frase de José Mário Branco) então que o afirme frontalmente, sem receios do julgamento da história, já que é esse o único a que está sujeito. Assobiar para o ar e fazer de conta que não foi nada com ele, é, como se costuma dizer, gato escondido com rabo de fora.
De facto soa muito estranho que alguém que foi um elemento tão essencial da nomenclatura moçambicana em todo o período histórico desde a independência moçambicana insista sempre em culpar a União Soviética (e, já agora, e de passagem, o Partido Comunista Português), lançando um olhar muito benévolo em relação aos Estados Unidos da América, sobretudo à administração Reagan, e até à África do Sul que foi, como se sabe, desde sempre erigido como o grande inimigo da revolução moçambicana.

É concerteza muito difícil, para quem se interessa pela história recente de Portugal e pela dos países africanos de língua portuguesa, não contrapor, de forma contraditória e mais ou menos veemente, ao que Jacinto Veloso escreve nas suas memórias que estavam, logo à partida, e pela própria natureza do autor e da sua história, condenadas à polémica. No entanto nada disso belisca a extrema oportunidade da edição do livro, e o valor do seu contributo e do seu testemunho. Estamos em Portugal muito pouco habituados a que os protagonistas dos principais acontecimentos políticos assumam passar a escrito e a público a sua versão das histórias em que participaram. Pode ser que também nisso os moçambicanos nos ensinem alguma coisa.