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a matéria dos sonhos
rosas
innersmile
Estive a ver a lista dos filmes candidatos ao Oscar e entre as dezenas de títulos que receberam nomeações só vi dois ou três filmes. E a questão é que não vi e, na maior parte dos casos, nem me apetece ir ver. Acho que estou a atravessar a maior crise de sempre, em termos de vontade de ir ao cinema. Acho que um dia destes me retiro a mim próprio a condição de cinéfilo. A única coisa que posso invocar a meu favor é que sempre vou vendo uns dvds, sobretudo de filmes antigos.

Ontem estava a falar ao telefone e a zappar a televisão e dou com os rodapés da CNN e da Sky a anunciarem a morte do Heath Ledger. Apesar de ser um dos actores do momento em Hollywood (com dois filmes a estrear que despertam interesse, a sequela de Batman, em que faz de Jocker, e I’m Not There, a fantasia dylaniesca de Todd Haynes) não tinha uma galeria de interpretações muito notável, em parte porque estava muito colado a uma certa imagem de galã romântico e aventureiro, e em parte porque alguns dos filmes em que entrou eram muito fraquinhos (estou a lembrar-me do insuportável Casanova).
Mas bastava a Ledger ter feito um só papel, para esta ocasião ser magoada e triste. Falo, é claro, de Ennis Del Mar, o cowboy silencioso e atormentado que, apesar de si próprio, se apaixona por outro cowboy em The Brokeback Mountain. Muito do encanto do filme tem a ver a sua personagem, com os olhos pequeninos que contrastam com o seu silêncio, com a capacidade absolutamente mágica de dar corpo a um personagem de papel, de tal modo que ainda é o corpo do actor que o habita quando desse personagem nada mais resta do que uma camisa vazia e ensanguentada pendurada num cabide.
As televisões ontem transmitiam imagens do prédio onde o actor morreu, em Manhattan, com clips do actor, nomeadamente imagens de Ledger, lindo como o sol, na passadeira vermelha a entrar nas habituais cerimónias de entregas de prémios, ladeado de fãs e de repórteres e câmaras. Às tantas vêm-se os tipos da medicina legal empurrar uma maca, da porta do prédio para uma ambulância, com o corpo de Ledger embrulhado no sinistro saco preto, ladeado de fãs, de repórteres e de câmaras! Há uma estranha ironia nestas imagens, terrível, mas incrivelmente poética.
O Saint-Clair diz num apontamento que pôs no Opiário, que provavelmente não estaria tão chocado se Ledger fosse feio, ao invés de ser lindo e talentoso como é, de uma beleza que, na expressão do Saint, 'mexe' connosco. Era precisamente essa capacidade de 'mexer' connosco, de alimentar as nossas fantasias e de saciar a nossa necessidade de beleza e o nosso desejo da impossível perfeição, que fez a vida de Heath Ledger. E também, muito provavelmente, a sua morte.
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