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a jóia na coroa
rosas
innersmile
Acabei de ver ontem à noite o último episódio de The Jewel in the Crown, uma série inglesa produzida em 1984 e acerca da qual se poderia usar o lugar comum da proverbial qualidade das séries da BBC, não fosse esta ser produzida pela Granada…
A série acompanha as peripécias de meia dúzia de personagens ao longo dos anos de 1942 a 1947 tendo como pano de fundo o fim do Raj, o império britânico na Índia, e o nascimento da União Indiana e do Paquistão. A série termina mesmo nas vésperas do 15 de Agosto, a data da independência da Índia.
Na minha opinião a maior qualidade de TJitC é conseguir balancear muito bem a parte romanesca com o fundo histórico, não apenas criando relações de causa e efeito entre os dois planos, mas inclusivamente dando aos episódios da vida privada um cunho sociológico de repercussões sociais e políticas Por exemplo a relação entre Hari Kumar e Daphne Manners que sendo do exclusivo domínio do romanesco é de facto o episódio que desencadeia todo o tumulto social e político em que a série se desenvolve (dando de barato, como é óbvio, o próprio contexto já referido do fim do Raj).
Por outro lado trata-se, como quase sempre acontece, de um retrato muito implacável dos ingleses, da sua mentalidade e da sua maneira de estar no mundo. Poucos povos têm esta capacidade de olhar para si próprios com tão pouca clemência, pelo contrário com uma frieza tão grande que chega a ser cruel. E isto, saliente-se, sem qualquer espécie de distúrbio de personalidade ‘nacional’, ou seja, não é uma questão de falta de auto-estima, muito menos de ódio auto-centrado, nada disso, é mesmo uma capacidade de se porem a si próprios na berlinda sem paninhos quentes nem desculpas de má consciência. Toda a galeria de secundários ingleses é disto exemplo, com particular destaque para a família Layton, com exclusão de Sarah, a protagonista, que é das poucas personagens que percebe o logro enorme que foi a presença inglesa na que era considerada precisamente a jóia da coroa do império britânico.

Não me lembrava nada desta série, a não ser que ela tinha passado na televisão portuguesa, e uma ideia muito vaga da personagem de Ronald Merrick (um personagem um pouco desprezível e que é o protagonista central, pelo menos é o único que aparece em todos os episódios, apesar de no último o fazer apenas através de um flashback). Achei-a magnífica, muito bem construída, tentando dar da Índia, mais do que retrato mais ou menos exótico, um retrato da alma, de qualquer coisa de essencial. E gostei muito do modo como a série consegue olhar para o passado colonial dos ingleses, traçando, sem miserabilismos nem discursos primários, um retrato desapiedado e muito longe de ser lisonjeiro. Foi de resto este o aspecto que mais me interessou na série, analisar e tentar perceber como podemos falar do nosso passado colonial sem o rejeitar de maneira mais ou menos esquizofrénica, mas também sem esconder ou menosprezar aquilo que ele tinha de reprovável ou mesmo odioso.
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