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1. peão e4
rosas
innersmile
Acho que já contei aqui que aprendi a jogar xadrez com um soldado da guerra colonial que passou pela casa dos meus pais. Em 1972 entrei para o ciclo preparatório, na Escola Comercial e Industrial Neutel de Abreu, em Nampula (o ciclo dos rapazes; o das raparigas era no vizinho Liceu Gago Coutinho, para onde passei para fazer o terceiro ano) e, como eu conhecia as regras do jogo, fui aliciado para integrar a secção de xadrez da escola, julgo, mas não tenho bem a certeza, que enquadrada nas actividades da então chamada Mocidade Portuguesa. Para quem não sabe, a organização juvenil do Estado Novo que, por entre actividades desportivas e acampamentos, ia enquadrando ideologicamente os jovens nos ideais políticos. Tornei-me um razoável jogador, cheguei a participar num torneio, comprei livros (e tenho a vaga ideia de ter, juntamente com um colega, roubado um na livraria Villares). Entretanto aconteceu o 25 de Abril, eu passei para o liceu, tornei-me um continuador da revolução, vim para Portugal, e quando voltei a jogar xadrez foi uma desgraça tão humilhante que nunca mais me atrevi e deslocar um peão que fosse.
Mas nesse ano de 72 o xadrez era uma das secções mais populares da escola (juntamente com a do karting, onde o meu irmão tinha participado, e que era um clube demasiado restrito para eu poder sequer aspirar a pertencer), e a responsabilidade dessa popularidade devia-se ao célebre torneio de Reiquiavique em que o norte-americano Bobby Fischer venceu ao soviético Boris Spassky, reeditando no tabuleiro das 64 casas o conflito leste-oeste e a guerra fria. Um dos tais livros de xadrez que ainda tenho por aí (quem sabe o tal que foi surripiado na Villares) era de resto exclusivamente sobre esse torneio com a transcrição de todas as partidas.
E apesar dos meus dissabores futuros com o xadrez, a verdade é que Bobby Fischer nunca deixou de ser um dos meus heróis, ao longo de toda a vida, honrando o princípio de que os nossos heróis são sempre aqueles que admirámos, e em quem acreditámos, na infância. O facto de toda a vida pós Reiquiavique de Bobby Fischer ter sido quase tão desastrosa como o meu xadrez fez-me muitas olhar para as excentricidades e para os disparates do antigo campeão com alguma condescendência, mas sempre com o intocável respeito que por ele aprendi a nutrir desde que eu tinha 10 anos.
Por isso, pela perda de um herói da minha infância, fiquei triste quando li hoje no jornal que Bobby Fischer morreu, doente, nessa Reiquiavique onde conheceu a glória, e que, em homenagem à notoriedade que ele trouxe à capital islandesa em 1972, o acolheu em exílio quando Fischer, impedido de regressar aos Estados Unidos por causa dos disparates que disse a propósito do 11 de Setembro, foi preso no Japão por uso de passaporte caducado.

serviço público
rosas
innersmile
A esta hora Alberto Pimenta e Vitor Silva Tavares são convidados do programa Camara Clara, na RTP2, para discutir literatura marginal.
Absolutamente a não perder.