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balada para varella cid
rosas
innersmile

Faltam-me poucas páginas para terminar a leitura de 'Balada para Sérgio Varella Cid', da autoria de Joel Costa, e que é um romance biográfico sobre a vida e a personalidade daquele que foi considerado um pianista genial. Fiquei com vontade de ler o livro assim que o vi à venda, meses atrás, mas foi o facto de ter sido incluído nalgumas listas dos melhores livros publicados o ano passado que me levou definitivamente a ele.
Sérgio Varella Cid, para abreviar o registo biográfico, era filho de um professor de piano e foi considerado um menino-prodígio na Lisboa dos anos 40, tendo privado com alguns dos maiores pianistas do mundo, que frequentavam a casa da família. Ainda adolescente foi estudar para Londres, onde viveu praticamente toda a sua vida, e de onde encetou uma carreira internacional de concertista. Em finais dos anos 70 muda-se para o Brasil, onde, em Junho de 1981, desaparece sem deixar rastro, ao que se crê vítima de assassínio por parte dos seus comparsas. Tenho alguma memória, mas muito vaga, da notícia do seu desaparecimento e das circunstâncias misteriosas que o rodearam, e que fizeram, como se imagina, as capas dos jornais da época.
É que se o génio pianístico era a face luminosa de Varella Cid, a sua face sombria era tão ou mais poderosa. Jogador (ao ponto de passar dias seguidos mergulhado nos casinos, muitos deles clandestinos) e bon-vivant, desde jovem que Varella Cid se dedicava a toda uma série de esquemas e negócios financeiros, muitos deles verdadeiras vigarices que tanto podiam vitimar gerentes de banco como amigos pessoais e até familiares, que lhe fornecessem os fundos necessários para suportar as dívidas de jogo e o estilo de vida grandioso. E foi esta sua faceta criminosa que o levou ao Brasil, onde numa espiral que começou por negócios escuros e terá, segundo alguns, terminado no tráfego de droga (tese aventada no livro, mas negada pela família), e ditado as circunstâncias do seu desaparecimento.
Quanto ao livro, trata-se, como referi, de um romance biográfico, ensaiando o autor uma recriação da vivência diária e do psiquismo do seu protagonista. Joel Costa mistura vários registos literários, suportando-se em inúmeras cartas de Sérgio Varella Cid e noutra iconografia documental que por vezes dão ao livro um tom de reconstituição biográfica, mas nunca negando a descrição narrativa de carácter puramente ficcional. Não falta sequer a própria presença do autor enquanto personagem da investigação que conduziu ao livro, contracenando com familiares e amigos de Varella Cid, por vezes mesmo num estilo romanesco, ou interpelando o leitor dando conta dos seus progressos e até das suas reflexões.
Deste modo o livro parece pretender inserir-se numa certa corrente literária, a que passa pelo Truman Capote de In Cold Blood ou por Tom Wolfe, visando traçar um retrato vivo do biografado, assente em insights que, mais do que um mero registo factual da vida, dêem espessura e densidade, particularmente aos níveis psicológico e psíquico, a esse retrato. E é no tamanho desta ambição que o livro me parece um pouco falhado, não obstante tratar-se de uma obra invulgar, quer no seu objecto quer na sua natureza quer no próprio fôlego a que aspira. E digo que é falhada porque no meio do compósito que forma o livro, a personagem de Sérgio Varella Cid resulta sempre demasiado fugidia, uma sombra um pouco vaga que nunca percebemos (o que até seria compreensível), mas da qual, sobretudo, nunca entrevemos a perplexidade ou o transtorno que o animava. Digamos que ao longo das quatro centenas de páginas do livro, e apesar de todos os retratos, das cartas, das entrevistas, das reconstituições rigorosas ou das reconstruções mais ou menos livres, a personagem de Sérgio Varella Cid nunca ultrapassa condição de esboço, de desenho a lápis grosso que capta os traços essenciais mas ao qual escapam os pormenores que dão vida ao retrato. Claro que se poderá sempre dizer que seria essa a verdadeira natureza do génio do piano, e que esse esforço de certo modo inglório será a prova da justeza do trabalho que Joel Costa construiu sobre Sérgio Varella Cid, explicitado no próprio título da obra, uma 'balada para' em vez de uma 'vida e obra de'. Fica a dúvida.


edit:
Joel Costa, o autor de Balada para Varella Cid, deixou um amabilíssimo comentário a este texto, em que tece considerações que enriquecem e esclarecem o que foi escrito na parte final do texto, e das quais, pelo seu interesse, transcrevo as seguintes:
«Foi precisamente isso. O esfumado e o imponderável da personagem não diria que fosse minha intenção mestra. Somente resultou. Apercebi-me disso no final da escrita, sem dúvida. Mas foi assim que eu o imaginei e julgo que era mesmo assim que ele era, imprevisível,imponderável, de aparecer e desaparecer (mesmo fisicamente)e com o contorno mental obscuro de alguém possesso deforças que o ultrapassam, umambicioso por dnheiro, um viciado em adrenalina, um compulsivo, um jogador,um pianista talvez de genialidades intermitentes. Não havia nada a fazer. Não há nada a fazer se se quer ser literariamente honesto,para dourar ou alindar estilisticamente uma psique deste quilate. E exactamente por isso preferi um tom romanesco. Se me tivessem importo uma biografia académica,mesmo partindo do pricípio escorregadio de que essa biografia poderia ser mais esclarecedora (do que duvido com quantos dentes tenho), não a teria feito.»