?

Log in

No account? Create an account

estação seca . 10/25
a_seco
innersmile
10

Acorda, agora. Olha para tudo o que deixaste por fazer na véspera da tua voz e passa a mão pelo pêlo, devagarinho. Arranha-te a garganta? Então desprende-te lentamente deixa-te ir, sente o teu corpo à deriva, como uma folha amarela no caudal da água da chuva que escorre para o bueiro. Há-de chegar a tua hora, rapaz, não percas a esperança. Ou não te percas na esperança, enquanto entoas os teus cantos mansos.

Vê como a tarde cai, escorrida e inexorável. Vê como tudo tem um sentido, e como tu o percebes tão melhor quando estás deitado na manta, a contorceres-te de dores. Doem-te as feridas, não é? Dói-te o sol quando te penetra as feridas e as queima, não é? Dói-te não estar sempre a chover e o teu corpo adormecer feliz num sono aquoso e translúcido. Dói-te não seres outra vez o menino da tua mãe, quando a tua mãe ainda nem sequer sonhava em tropeçar nos soluços da noite insone. Dói-te não andares de bibe, a escorrer baba pelos cantos da boca desdentada. Dói-te seres já a promessa de um cadáver, não é? Doem-te os pregos a ganhar ferrugem, não é? Dói-te a secura nos ossos, não é?

Escreves o teu nome com letras pequeninas e pões-te a contá-las uma a uma. És tão engraçado a escreveres o teu nome e a soletrá-lo em voz alta, para te iludires com a impressão de que sabes quem és. Escreves o nome e tentas decorá-lo, dá-te a aconchegante sensação de que és alguém, és um tipo qualquer, não te confundem mais com o pêlo de um cão, és um senhor a berrar de madrugada, quando sonhas com a possibilidade de amares alguém para além da sombra da tua solidão, para além dessa sombra bem definida que te cresce a partir dos pés, és verdadeiro e existes, corre-te o sangue pelos braços e pelos pulsos, sentes comichões nas crostas, existes, sim, respiras e o ar que exalas é quente e húmido como o dos bois, tudo, porque juntas uma a uma as letrinhas e consegues alinhavar o teu nome. E dize-lo em voz alta, de costas para o espelho, onde o reflexo da tua nuca arde como a chaminé de um poço de petróleo.
Tags: