January 15th, 2008

a_seco

estação seca . 9/25

9

São dois rectângulos de vidro que te trazem o mundo, num clarão. Quantas vezes ao longo do dia te atiras desvairado de encontro aos vidros e te rasgas na imensa impossibilidade de te esvaíres em sangue? Quantas vezes os teus olhos cegam a olhar a claridade? Quantas vezes a tua alma é uma onda suave que paira no vazio que se estende para lá dos vidros? Quantas vezes os teus trémulos dedos aperta com força o canto dos lábios enquanto te ausentas parado, nos vultos indefinidos que cruzam o dia iluminado lá fora?

Trazem-te os vidros um terraço verde que se abre em copas de cores diferentes. Árvore a árvore. Bebes com sofreguidão a paisagem e por breves momentos esqueces-te. Lá fora, para lá dos vidros, o tecto do jardim estende-se até ao fundo num plano em perspectiva. Para cá dos vidros, espelha-se a paisagem por dentro dos teus olhos até ao fundo da retina, até te perfurar a nuca e dares conta que a felicidade de lá de fora se derrama pelas tuas costas, te ensopa a camisa burocrática, e suja o chão como desinfectante.