January 14th, 2008

rosas

torch song trilogy

Devo ter visto o filme pela primeira vez aí por volta de 89 ou 90, em Londres, num cinema de Shaftesbury Av. Chovia? Pelo menos na minha memória sim. A impressão que o filme me causou foi tão forte que toda essa estadia londrina, e os tempos que se seguiram, foram muito marcados por ele, não só em termos de humor, mas mesmo nas reflexões introspectivas que o filme desencadeou em mim. Não era obviamente a primeira vez que eu, então com vinte e tal anos de idade, via um filme que falava de homossexualidade ou que a representava de forma gráfica mais ou menos explícita. Por essa altura, e entre muitas outras referências, eu já conhecia filmes de Derek Jarman ou de Fassbinder, e inclusivamente já tinha tido acesso a uma dose razoável de blue movies gays. Mas era a primeira vez que o cinema me dava uma história em que, mais do que uma referência artística ou política, e muito mais do que uma questão de género ou preferência sexual, o que estava em causa era uma maneira de viver própria das pessoas que amam outras do mesmo sexo.
Depois desse visionamento em Londres, vi o filme novamente na televisão portuguesa, onde passou com o título Corações de Papel, gravei-o em vhs, o que me possibilitou muitos outros visionamentos, e, claro, uma atenção particular aos diálogos de um humor que, nas próprias palavras do autor, apenas se pode definir com rigor como sendo gay, judeu e nova-iorquino. Finalmente, da viagem a Barcelona trouxe o dvd de Torch Song Trilogy, numa edição francesa e que por isso, infelizmente, apenas tem legendas em francês.
O filme Torch Song Trilogy é uma adaptação da peça teatral com o mesmo título da autoria de Harvey Fierstein, e que, num registo autoral e muito autobiográfico, conta em tom de comédia a história de um profissional de travestismo (female impersonator, é a expressão exacta) em três actos: o engate, o amor, a família. Mas o que é notável, e precioso, em TST é que o filme consegue ser simultaneamente um registo narrativo de tipo melodramático, e um statement acerca dos assuntos que, digamos assim, preenchem a agenda política de um cidadão homossexual.
Por um lado o filme aborda a vida de Arnold Beckoff, a personagem principal desempenhada pelo próprio Fierstein, sob todas as perspectivas, a pessoal, a profissional, a familiar, a amorosa, a sexual, a afectiva. E é essa visão total que confere ao filme um carácter tão honesto e verdadeiro, e torna a personagem e a sua história tão credíveis.
Mas por outro lado, é interessante ver como TSR aborda, com clarividente presciência, e sem todavia abandonar ou prejudicar o ritmo dramático, uma série de temas que estão na actualidade das agendas políticas dos movimentos gays e lésbicos, como sejam o casamento, a adopção, ou a homofobia, particularmente a homofobia violenta.
E a propósito de violência vale a pena focar outro aspecto de TST. Tratando-se de uma comédia (com algumas ‘tiradas’ do mais cáustico e divertido que se possa imaginar), o filme não deixa de ter um nível de violência razoável, quer na acção, como na cena do assassinato do amante de Arnold, quer a nível verbal, por exemplo nas discussões entre Arnold e a mãe, quer no modo confrontador de algumas sequências.
Para além de Harvey Fierstein, TST conta ainda com outros desempenhos notáveis, e, claro, o facto de um deles ser da Anne Bancroft, uma das minhas actrizes preferidas, e outro do Mathew Broderick, só ajudam à festa.

Como comecei por dizer, TST foi um filme que me marcou muito. Numa altura em que o cinema desempenhava um papel importante na minha vida, e no meu processo de auto-conhecimento e construção pessoal, TST mostrou-me que havia vidas em que a condição homossexual de quem as vivia não era uma espécie de maldição secreta e clandestina, nem um mero quadro de referências culturais, mas um dos factores a cuja luz essas vidas desabrochavam e se desenvolviam. Talvez lastime o facto de TST ter chegado à minha vida um pouco tarde. E talvez seja por isso que ainda hoje não consigo evitar vê-lo com uma ponta de nostalgia. Não a de quem eu era quando o vi pela primeira vez. Mas a nostalgia um pouco eufórica e um pouco agoniada, de quem eu poderia ter sido.