January 13th, 2008

rosas

cassandra's dream

Antigamente havia uma piada que dizia que o sexo é como a pizza: quando é bom, é muito bom, e quando é mau, ainda é bastante bom. Na mesma linha de ideias poderíamos dizer que os filmes de Woody Allen também são como a pizza, com a vantagem de que mesmo quando são maus fazem melhores digestões.
Cassandra’s Dream, o terceiro filme londrino de Allen, parece querer regressar, depois do divertimento mais ligeiro de Scoop, ao universo narrativo de Match Point, sendo, como ele, um thriller sombrio com forte pendor moral. A diferença é que Match Point tinha uma subtileza carregada de ironia e até desfaçatez que parece estar totalmente ausente de Cassandra’s Dream. Aparentemente deveria ser a personagem de Ian (desempenhada sempre com muita folga por Ewan McGregor) a trazer para o filme o tom amoral que lhe falta, mas a verdade é que, seja por defeito da escrita seja pelo registo interpretativo, Ian aparece sempre como um jovem entrepeneur demasiado ambicioso mas demasiado racional e previsível. E a verdade é que, apesar da choraminguice um pouco irritante, Terry, o irmão desempenhado por Colin Farrell, ainda assim nos surge como a personagem mais densa e intrigante.
Foi, tanto quanto me lembro, a primeira vez que um filme de Allen teve uma banda sonora especialmente escrita, e por Philip Glass. Já Match Point tinha sido uma estreia, com trechos de ópera em vez do tradicional jazz. Talvez esse facto de o filme ter um score ajude o filme a não quebrar um certo convencionalismo.
Apesar da sua longa e regular carreira, a verdade é que sempre nos habituámos a ver os filmes de Allen como a obra de um humorista, ou seja, de alguém que reflecte na sua obra uma perspectiva risível do mundo e das coisas, que é, ainda que de forma redundante, a única definição possível de humor. E talvez o defeito maior de Cassandra’s Dream seja o de a sua perspectiva, que se queria moral, descair com demasiada facilidade para um moralismo de pacotilha em que, para usar a admirável metáfora de Match Point, a bola cai sempre para o lado certo da rede. Falta a este filme alguma coisa que não consigo definir melhor do que sofisticação e elegância, duas das marcas mais distintas da escrita cinematográfica de Woody Allen.
O que vale é que, como comecei por realçar, e falando apenas por mim, é claro, um fraco Woody Allen é, não obstante, mais inteligente e divertido do que a grande maioria dos filmes que poluem as salas de cinema hoje em dia.