January 7th, 2008

rosas

boy culture+cachorro

Da minha recente visita a Barcelona, mais propriamente da livraria Antinous, trouxe três dvds com filmes de tema gay. Um deles, Torch Song Trilogy, ainda não (re)vi e vai merecer uma entrada só para ele. Os outros dois são típicos filmes de um sistema de produção que pretende criar produtos que digam especialmente respeito a pessoas com uma determinada orientação sexual. Não que se esgotem nisso, ou que não possam ser apreciados por outros públicos, mas parece-me que não é forçar muito a nota reconhecer que são desenvolvidos particularmente para pessoas que se consigam identificar com as situações e as personagens que desfilam no ecrã.

Boy Culture, do norte-americano Q. Allan Brocka (ao que parece familiar de um lendário cineasta filipino, Lino Brocka, que conheceu alguma glória cinéfila na Europa com os seus filmes de denúncia da ditadura de Marcos ou sobre o flagelo da prostituição masculina nas Filipinas), apresenta-se como uma memória de um prostituto e do seu difícil, mas muito sexy, percurso até à descoberta do amor. O filme vale, sobretudo, por um argumento razoavelmente bem escrito, com algumas pérolas de diálogo, e por um grupo de actores muito mas muito jeitosos (no sentido mais prosaico de termo). Um deles, de seu nome Darryl Stephens, apareceu na lista deste ano que a revista Out elaborou sobre os 100 gays e lésbicas mais influentes.

O outro filme é uma simpatiquíssima fita espanhola, Cachorro, realizada por Miguel Albaladejo, focada na comunidade bear madrilena, particularmente sobre as aventuras e desventuras de um dentista um pouco promíscuo que de repente se vê a braços com a responsabilidade de tomar conta de um sobrinho. Há qualquer coisa de irresistível no cinema espanhol, que tem a ver com o tom desempoeirado com que aborda temas que em Portugal ainda fazem corar de vergonha, e com o modo bem-humorado e até um pouco provocador como o faz. Cachorro (que suponho que seja o correspondente espanhol ao 'cub', ou cria, e que são os tipos mais jovens que gostam dos bears, ou ursos, homens mais velhos, corpulentos e peludos) retrata com carinho, e mesmo alguma candura, um estilo de vida que será o de muitos homens, nomeadamente portugueses, foca de uma forma ligeira alguns temas muito importantes, e apresenta uma narrativa económica e eficaz que se esforça por nunca perder o seu fio condutor, o da história que pretende contar e dos seus protagonistas.

Tenho a impressão de que ambos os filmes passaram em Portugal no âmbito do festival de cinema gay e lésbico, pelo menos o de Brocka passou, já que encontrei referências ao filme na programação do festival.