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o viajante sedentário
rosas
innersmile
O VIAJANTE SEDENTÁRIO


Para o
Saint-Clair Stockler


Pouso a chávena de chá fumegante, rodo a tampa lacada da caneta e começo a escrever no topo da primeira página.
"Luxor, 26 de Abril. Já a bordo do M/S Majestic, pronto para subir o Nilo em direcção a Assuão. Chega-me, de lá de cima do deck ao ar livre, a algazarra das crianças na piscina, mas aqui, no salão deserto (enfim, quase, há uma velha senhora a dormir com um romance de Agatha Christie caído sobre o colo, e um homem de negócios de meia-idade que desfolha as gigantescas folhas de um jornal inglês), reina a fresca tranquilidade do ar condicionado. Estou derreado. Toda a manhã no Vale dos Reis, filas intermináveis de turistas para entrar nos principais túmulos, um calor abrasador e magnífico. Eu ia escrever sufocante, mas talvez não seja o lugar comum mais apropriado para este tipo de calor, em que se morre de insolação antes que nos falte o ar. A senhora B. Lares acompanhou-me toda a manhã, uma energia notável para uma mulher que já não é nova (e agora está lá em cima, espreguiçando-se ao sol), debitando-me pormenores que noutra ocasião seriam sem dúvida interessantes acerca das vidas dos faraós. Digo isto porque, em longas filas, horas à torreira do sol, o suor escorrendo-me copiosamente, os olhos suplicantes na garrafa de água vazia, tudo o que eu queria saber acerca dos faraós era como fugir deles o mais depressa possível."
Olho para a mancha de texto e sinto a urgência de um parágrafo. Preciso de fazer parágrafo. Estou indeciso entre fazer parágrafo na frase "Estou derreado" ou um pouco mais à frente com "A senhora B. Lares". Que existe. A senhora B. Lares existe, não é uma mera personagem literária. Chama-se Catarina Lemos e trabalha a secretária mesmo em frente à minha. É ela que prepara o chá todas as manhãs e só depois me dá um toque para o telefone a avisar de que o chá está pronto. É uma cumplicidade antiga, somos colegas desde que entrámos para a repartição, muito novos, e por isso decido que ela me deve acompanhar na viagem ao Egipto, sobretudo no cruzeiro do Nilo. Hesitei entre um cruzeiro de três dias, a descer o rio, ou um de cinco, de Luxor para Assuão. Decidi-me por este último, tem mais paragens, o ritmo é outro, visitam-se mais templos. Além de que não tenho pressa em regressar.

Procuro sempre o que não conheço.
"São oito da noite e estou na estação central de Kuala Lumpur, dentro de um comboio que vai arrancar, daqui a minutos, para Singapura. É Domingo, e o comboio, uma composição interminável, está cheia de pessoas que vão trabalhar da cidade estado da economia franca. Por essa razão as carruagens de camarotes fechados estavam esgotadas, e apenas conseguimos lugar na carruagem de beliches abertos, ocupada maioritariamente por estudantes com os seus laptops abertos no colo. Eu e Francesca seguimos em dois beliches no primeiro andar, um em frente do outro em lados opostos do corredor. Francesca subiu, com uma certa dificuldade, por sinal, para o seu beliche, tomou um soporífero, tapou os olhos com uma venda preta e correu a cortina da cabine sem sequer me dizer boa noite. Não lhe levo a mal. A confusão verdadeiramente caótica da estação no momento do embarque, e o meu terrível sentido de desorientação tornaram o embarque numa verdadeira aventura de final imprevisível. Quando finalmente encontrei os nossos lugares Francesca estava derreada sob o peso do seu saco de viagem e com os nervos em franja. E depois ainda teve de atravessar quase meio comboio até encontrar uma casa de banho da primeira classe em condições de ser usada."
Francesa é uma mulher madura, morena, muito bonita, inteligente, com uma cultura literária extraordinária, mas com um feitio terrível, e uma ponta, que em certos momentos sobressai mais do que noutros, de insanidade mental. Ao contrário da senhora B. Lares, Francesca não existe. Ou melhor, é uma projecção de mim próprio, talvez, enfim de um certo lado de mim próprio. Se não fosse um desagradável lugar comum, eu diria que todos temos um lado Francesca, que poderia ser o nosso lado melhor se não fosse precisamente o pior.
"Perto das cinco da manhã o comboio pára subitamente. Sacudo Francesca, que despenca do beliche abaixo e saímos em passo de corrida para a plataforma da estação. Quando reparo que somos dos raros passageiros a abandonar o comboio, e os únicos europeus, percebo que cometi outro erro: estamos em Johor Bahru, a última cidade da Malásia antes da Singapura, e não nas Woodlands, onde fica o posto fronteiriço que separa os dois países e onde eu sabia que tínhamos de desembarcar para as formalidades alfandegárias."

"São dez da manhã e o M/S Majestic está neste preciso momento a atravessar a eclusa. Ou melhor, a subir. Mais de doze horas para vencer este desnível de quatro metros no leito do rio. Os restantes passageiros estão todos debruçados na amurada a assistir às manobras de navegação, e eu aproveito o vazio da esplanada para beber o primeiro karkadé do dia."
Um relógio lá fora, o da igreja mais próxima, começa a dar as horas e instintivamente olho para o relógio. É tardíssimo, mais do que horas de estar a dormir. Amanhã, a manhã na repartição vai ser penosa. E a sonolência pós-prandial impossível de suportar.
"Ontem, chegámos a Esna ao fim do dia, mesmo a tempo do mercado fluvial. Em duas horas de agressiva negociação, com sacos de plástico voando ininterruptamente entre o deck superior do barco e as minúsculas embarcações dos vendedores, a senhora B. Lares conseguiu arrematar, 'a preço de pechincha', acrescenta, dúzias de écharpes em pretensa seda natural, três camisetas com incrustações, e ainda, a título de oferta, uma toalha de praia com motivos egípcios e dois chapéus de cabeça (prometeu dar-me um). Eu, que tenho pavor a regatear, desci para a cabine e tinha acabado de entrar quando senti alguma coisa a bater na janela. Espreitei e, a uns dois ou três metros de distância, quase ao alcance da mão, um vendedor muito jovem, propunha-me comprar-lhe uma écharpe. 'Good price, bonne prix'. Perguntei-lhe quanto e recusei a oferta. Numa explicação que misturava amostras de inglês e francês, pediu-me para eu fazer o meu preço e incitou-me a negociar. A noite desce rápida sobre o Nilo, eu estou debruçado para fora da janela de um barco de cruzeiro, e quase à distância de um braço, um jovem árabe de sorriso simpático e olhos cansados, tenta explicar-me os fundamentos da arte do negócio! Claro que não resisto e acabo a comprar-lhe os restos da mercadoria que lhe sobraram de negócios sem dúvida mais esforçados e proveitosos. No saco plástico onde embrulho as notas de euro, junto ainda as garrafinhas de champô e gel de banho do quarto de banho. E ainda um frasco com pouco menos de metade do meu perfume francês preferido."

Há histórias antigas que se vêm misturar, e confundir, com histórias mais recentes. Levanto-me da mesa por momentos, e procuro na estante uma pasta de arquivo. A noite está irremediavelmente perdida por isso o melhor é continuar. Sem pensar muito no dia de amanhã. Quer dizer, no dia de hoje, esse que vai começar daqui a menos de um par de horas.
"duas, quatro, oito faixas de rodagem. uma infinita estrada estadual (evitar a aliteração) que atravessa o coração verde (evitar profundo) da nação americana (evitar o lugar-comum). seis horas atrás de nós está uma cidade universitária pequena e, agora que é período de férias, tranquila, de onde saímos ainda era noite. uma hora à nossa frente, e já tão presente à nossa frente que é como se já estivéssemos dentro dela, a imensa cidade (ou a cidade imensa). somos quatro num minúsculo automóvel de cor vermelha, de uma marca tão tipicamente americana que já deve ter sido montado num país do extremo-oriente. trata-se de um carro alugado, como indicam dois autocolantes enormes, colados um no canto superior direito do vidro da frente e outro na traseira junto à chapa de matrícula. no banco de trás a margarida intercala silêncios longos enquanto ouve músicas no walkman e interjeições de espanto perante a grandeza de tudo o que nos rodeia: a auto-estrada, os camiões de transporte de mercadorias, as áreas de serviço e os restaurantes, a paisagem que nunca termina, há sempre mais florestas, mais prados, mais colinas, mais rios que atravessamos em pontes igualmente grandes. rodrigo, o marido da margarida, ainda não pousou a câmara de vídeo, e vai filmando tudo, e gritando 'onde?' em resposta às interjeições de espanto da mulher. ao meu lado, catarina abre e fecha muitos mapas, conferindo trajectos e percursos. 'não te preocupes, já aqui tenho todo o trajecto até ao hotel, e assinaladas as mudanças de direcção e as saídas certas.' tenta mostrar-me o mapa. 'vês? olha aqui: cícero. o nosso hotel fica numa perpendicular da cícero, pouco depois do aeroporto de midway.' tento afastar o mapa, como se me estivesse a impedir de ver a estrada, mas a verdade é que estou um pouco aborrecido com a catarina, por causa dela e das suas indecisões temos de ficar num hotel distante do centro da cidade, porque demorei tanto tempo a confirmar que anularam as minhas reservas num hotel a dois quarteirões da magnificent mile, e outros tantos da zona onde há mais clubes de jazz. ao longo destas horas de viagem perguntei-me muitas vezes se não terá sido um erro tremendo estas duas semanas de férias que as minhas duas colegas de trabalho decidiram vir fazer ao pé de mim. andei desconcentrado, dividido entre a necessidade de cumprir as rotinas do departamento e a vontade, e até o sentido de obrigação, de as acompanhar nos passeios. irritei-me muito com o marido da margarida, que achei um palerma insuportável, ainda por cima sovina, não saiu uma única vez do carro para pôr gasolina. mas sobretudo perturbou-me muito tornar-me a deitar ao lado da Catarina, depois de três meses de liberdade. não a liberdade de fazer o que quero, mas principalmente a de não fazer o que não quero fazer, e, mais importante, a de não ter de fingir que quero. um enorme painel indica que estamos a aproximarmo-nos da portagem. a catarina grita 'eu tenho trocos, eu tenho trocos' e começa a revolver o saco onde tem a carteira com as moedas. eu abrando e oriento o carro para uma das passagens da portagem onde se paga com dinheiro certo."

"São cinco da tarde e estamos numa esplanada de Orchard Road, a beber cafés gelados em enormes copos de plástico transparente. Reparo, e comento com Francesca, que sou a pessoa mais velha, não apenas na esplanada, mas inclusivamente de todas as que vão passando pelo passeio largo. Francesca responde-me com um sorriso que se destaca na atmosfera húmida e quente de Singapura.
'A velhice, meu caro', diz ela emprestando uma conotação ao 'caro' que só ela consegue obter, uma espécie de desprezo condescendente e até um pouco afectuoso, 'é um risco que só patetas como você se podem dar ao luxo de correr?.
Nenhum de nós ignora, mas também nenhum de nós alude ao facto de Francesca ser praticamente da minha idade, se não for mesmo um pouco mais velha.
Começa a chover, uma chuva leve e nebulosa, que acentua a rápida queda da noite. As iluminações de Natal de Orchard Road acendem-se. Vista daqui do fundo, e apesar da chuva, a avenida parece ainda mais cheia de gente e de movimento. As luzes feéricas e a atmosfera saturada de humidade dão ao ambiente uma tonalidade quase irreal, como um filme desfocado. Olho para Francesca. O sorriso permanece, quase como se estivesse..."
Ouço tocar o despertador do quarto e termino a frase.
"... suspenso, pairando sozinho no lugar onde, até há poucos momentos, estava o resto do seu rosto, todo o seu corpo."
Pouso a caneta. Logo à noite, se não estiver a morrer de sono, continuo.


[E porque deste lado de cá da lagoa já é dia do seu aniversário, este conto dedicado leva também um beijo de parabéns.]
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