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eastern promises
rosas
innersmile
Fui ontem ver Eastern Promises, o mais recente filme de David Cronenberg. Devo começar por dizer que num panorama de cinema comercial cada vez mais desinteressante, o filme passa por uma iguaria, um verdadeiro festim (nu). Acho, no entanto, que o filme está longe de uma certa abstracção que caracterizava o cinema de Cronenberg, e que fazia de cada filme uma experiência de onde saíamos mais ricos e crescidos, a perceber melhor o mundo, ou pelo menos a ficarmos mais perplexos com ele. Eastern Promises refugia-se demasiado nas fórmulas do género, se bem que, na minha opinião, seja um filme mais devedor das regras do melodrama do que propriamente do thriller. Não que este refúgio no cinema de género seja mau em si, a questão é que centra muito mais o filme nas peripécias do enredo (algumas delas mesmo um pouco irritantes, como o recurso repetido às coincidências) do que propriamente nas chamas que devoram, e descarnam, a alma das personagens, como estávamos habituados a ver nos filmes de DC.
Isto não quer dizer, repito, que tenha desgostado do filme, antes pelo contrário, há uma volúpia no cinema de Cronenberg que em Eastern Promises parece estar mais refinada do que nunca. Todas as sequências no restaurante de Semyon têm um fôlego operático, a personagem de Nikolai está impressionantemente bem construída, tem cenas antológicas, como a da sauna. As interpretações são todas geniais. Viggo Mortensen consegue construir uma personagem que se torna tanto mais obscura e indecifrável quanto mais clara e simples, Vincent Cassel consegue a coisa rara de tornar uma personagem excessiva de uma fragilidade confrangedora, e Naomi Watts tem um desempenho tão focalizado que consegue ultrapassar o facto de a sua ser a personagem mais inconsistente. Mas, para mim, a melhor interpretação é a de Armin Mueller-Stahl no papel de Semyon, o patrão da máfia russa, que sempre num registo de uma elegância quase delicada e com um toque de requinte, constrói uma personagem de uma perversidade assustadora, e que a coloca lá em cima no panteão dos grandes padrinhos do cinema.
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