December 19th, 2007

rosas

c'era un ragazzo che come me

Não posso precisar bem a data, mas há-de ter sido aí por alturas de 71 ou 72, que conhecemos o Mário e a Margarida (nomes fictícios). O Mário era piloto de helicópteros e estava a fazer comissão militar e a Margarida, ao contrário do que era habitual, decidiu acompanhar o marido (talvez por uma certa insegurança: o Mário era muito jovem e muito bonito, a Margarida era mais velha e não muito bonita) e dava aulas no liceu. Como não podia deixar de ser, foi a minha mãe que conheceu a Margarida e em pouco tempo faziam parte do nosso círculo mais íntimo de amizades: fins de semana juntos na praia, serões, almoçaradas. Como a rota aérea passava por cima da minha casa, e juro que isto é verdade, o Mário quando estava a chegar dava três voltas com helicóptero à frente da nossa casa e nós telefonávamos à Margarida para o ir buscar ao aeroporto.
No regresso de umas férias na metrópole, como se chamava então a Portugal continental, o Mário e a Margarida ofereceram aos meus pais a hipótese de escolher um de dois discos, novidades que eles traziam da Europa. Em detrimento (feliz, devo dizer, apesar de na altura eu saber as canções de cor) do Demis Roussos, os meus pais escolheram um LP com uma gravação ao vivo, em Itália, da Joan Baez. Esse disco, de capas brancas, que ainda existe na casa dos meus pais, contém algumas das músicas mais famosas que Baez cantou, nomadamente temas do Bob Dylan e clássicos da folk de protesto dos anos 60, como o We Shall Overcome ou Oh Freedom.
Mas o meu tema favorito do disco sempre foi a última faixa do lado B, uma canção italiana creio que popularizada pelo Gianni Morandi, e com o título, improvavelmente longo mas inequivocamente sugestivo, de C'era Un Ragazzo Che Come Me Amava i Beatles e i Rolling Stones. Não sei a história da canção, aliás sempre pensei que era uma versão em italiano mas parece que não, que é mesmo um original. Mas é uma canção muito bonita, com uma letra bem intencionada, apesar de muito depassé e com aquilo que aos olhos de hoje pode parecer um exagero de ingenuidade. E que a Joan Baez canta com aquele seu agudo de afinação perfeita (ainda que, em momentos de maior estridência, um nadinha enjoativo).
Mas é sobretudo uma das canções mais antigas da minha memória (eu teria uns 10 anos quando a ouvi pela primeira vez), daquelas que fazem parte obrigatoriamente da banda sonora da minha vida, e que eu consigo ouvir dentro da minha cabeça.
Há algumas versões da canção no YouTube, nomeadamente cantadas pelo Gianni Morandi. Esta que aqui ponho é de um concerto da Joan Baez este ano, em Florença. Pouco se ouve a voz da cantora, abafada pelo som do público a cantar a canção, mas gostei do clip porque de algum modo espelha a magia que é sempre um concerto ao vivo, e que o verdadeiro artista (como diria o Serafim Saudade) é aquele que coloca o público no centro da performance. E também porque espelha o poder dessas canções de protesto que foram tão importantes na cultura jovem dos anos 60 e 70, e que eu acho que tive muita sorte em ter ouvido tantas quando era criança.



C'era un ragazzo che come me
amava i Beatles e i Rolling Stones
girava il mondo, veniva da
gli Stati Uniti d'America.
Non era bello ma accanto a sé
aveva mille donne se
cantava «Help» e «Ticket to ride»
o «Lady Jane» o «Yesterday».
Cantava «Viva la libertà»
ma ricevette una lettera,
la sua chitarra mi regalò
fu richiamato in America.

Stop! coi Rolling Stones!
Stop! coi Beatles. Stop!
Gli han detto vai nel Vietnam
e spara ai Vietcong...
Ta ta ta ta ta...

C'era un ragazzo che come me
amava i Beatles e i Rolling Stones
girava il mondo, ma poi finì
a far la guerra nel Vietnam.
Capelli lunghi non porta più,
non suona la chitarra ma
uno strumento che sempre dà
la stessa nota ratatata.
Non ha più amici, non ha più fans,
vede la gente cadere giù:
nel suo paese non tornerà
adesso è morto nel Vietnam.

Stop! coi Rolling Stones!
Stop! coi Beatles. Stop!
Nel petto un cuore più non ha
ma due medaglie o tre...
Ta ta ta ta ta...