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estação seca . 5/25
a_seco
innersmile
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Convences-te de que quanto mais só estás, mais livre és. Mas quando estás a fazer a barba, descobres que atingiste a maior grau de liberdade que um ser humano que vive em sociedade é capaz de alcançar. E não sabes o que fazer com ela.

Quando tornas a olhar, a navalha na mão trémula, o espelho embaciado escorre sangue.
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estação seca . 6/25
a_seco
innersmile
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Escorres lentamente pelas ruas da noite, à procura do que sabes que não encontras. Porque em todos os passeios, nas esquinas incendiadas pelos projectores dos nebulosos candeeiros, a vida expõe-se como uma ferida aberta, uma chaga à espera de um lábio, uma garganta atravessada de espinhos rugosos como dedos, e tu vês esses retratos do teu anverso com um misto de fascínio e horror, com um misto de ternura e abjecção. És uma madrugada que se esqueceu de amanhecer, quando queimas combustível à procura da tua própria cauda, cortada cerce. Ficará a marcar a berma dos passeios por onde passas, como datas inscritas em campa rasa, o rastro de baba que vais soltando e pelo qual deslizas?

Estás tão próximo do fim como estás do princípio, és um traço breve de tinta branca desenhado no centro de uma faixa de alcatrão, e uivas melancolia das bermas.

Quando te põem no centro da pista, danças como um cão amestrado, equilibras uma bola, colorida como lâminas de navalha, na ponta do nariz, e bates as barbatanas com fúria e entusiasmo. Lá por dentro sangras, desculpas-te. Queres-te convencer que por dentro da casca grossa e rude, há jardins imensos e ribeiros e fontes de água límpida e prados primaveris, mas quando te deitas à noite, e a tua cabeça arde sobre o branco imaculado da fronha da almofada, agonizas com a certeza de que és, quando muito, uma crisálida do ridículo, um títere sujo e esgarçado, que alguém deixou esquecido, de madrugada, no banco de uma paragem de autocarro abandonada.
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