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sunset boulevard
rosas
innersmile
Billy Wilder é um dos meus realizadores preferidos, adoro os seus filmes. Começou como argumentista e isso nota-se: os diálogos nos seus filmes são sempre geniais, e provavelmente contêm mais frases célebres do cinema, do que os de qualquer outro realizador. Para além dos argumentos entusiasmantes, outra das características dos filmes de Wilder que eu adoro é o modo como ele desafia a moral estabelecida, criando situações e sobretudo personagens que parecendo sempre ser pessoas normais, são capazes das condutas mais imorais. Ou seja, como todas as… pessoas normais. Finalmente adoro o seu sentido de humor, óbvio nos diálogos, mas também nas situações, nos mal-entendidos, nas insinuações. É esta combinação, de argumentos fabulosamente escritos, com um perverso fascínio pela imoralidade, e um humor ácido mesmo quando é doce, que tornam, para mim, Billy Wilder um dos maiores realizadores de filmes do cinema americano.

Vem isto a propósito porque acabei de rever Sunset Boulevard, que é uma obra-prima, e um dos filmes mais míticos da história do cinema. Aliás, esta carga mítica de SB acaba até por ser um pouco contraproducente. Temos um pouco a tendência para nos esmagarmos com a história de Norma Desmond, pelo seu valor metafórico em relação à própria natureza do cinema de Hollywood, pela desmesura do retrato cruel que traça dos abismos da natureza humana, e esquecemo-nos de quão divertido e perfeito o filme é, enquanto mero objecto cinematográfico. O excesso de reverência pode ter esse efeito, cegar-nos para o mais simples.

E reduzido à sua simplicidade, despido dessa carga mítica, SB é, lá está, uma comédia ácida mas divertidíssima, sobre a facilidade com que o ser humano transgride a linha da ética e da moral, servido por um argumento demasiado bem escrito para ser verdade. Mas é. Mas o toque de génio de Wilder, como é evidente, mais do que na força do argumento, está no domínio da narrativa visual, na maneira como ele recorre a todos os elementos, o guarda roupa, os cenários, os décors, os estilos de representação, os planos e as sequências, os travellings, a música, os contrapontos, tudo para nos contar uma história que é sempre mais do que aquilo que somos capazes de ver. E essa é uma característica das verdadeiras obras-primas: mesmo depois de já as termos visto dezenas de vezes, descobrimo-las sempre com o espanto e a perplexidade da primeira vez.