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estação seca . 3/25
a_seco
innersmile
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Colas ao vidro da janela a cor do dia. Azul como a dor que te mantém à inacessível superfície, como as luzes de trás de um automóvel que desaparece na curva da auto-estrada, como as mãos dadas em frente às rochas. Chumbo como a lágrima que deixaste cair e se foi despedaçar de encontro às escarpas incendiadas de um rasto na areia. Vermelho como o sangue do teu coração em flor.

Reparas, pelo vidro pára-brisas do automóvel, nas asas recortadas de um milhafre que evolui à tua frente. Há na planadura do seu voo uma voz que te adormece. Uma canção. A memória difusa e distante de uma canção. Por um momento tens a noção de que houve outro tempo, que os dias não foram sempre assim puídos e gastos. Das asas do milhafre solta-se um pó de felicidade que te roça ao de leve os dedos e, por um singularíssimo momento, julgas que és feliz.
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estação seca . 4/25
a_seco
innersmile
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Entra-te a chuva pelo espelho do mês. O teu futuro é uma promessa abandonada, como um passeio num parque selvagem em que tu és o pasto e o sangue dos animais, mas eles já morreram de fome. Passeias com os vidros do carro abertos e achas que és o rei da selva, mas só as carcaças descarnadas do que foram um dia os teus sonhos te saúdam à tua passagem.

O teu sorriso, em dias destes, é um limão áspero espremido sobre uma ferida.
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