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áudio-livros
rosas
innersmile
A amiga dias_uteis pôs um post sobre audio-livros, e eu aproveito para dar a minha opinião.

Gosto de áudio-livros. Para além de lhes reconhecer utilidade (pessoas com dificuldades visuais, analfabetismo, etc), gosto do próprio conceito, dessa coisa de ouvir alguém a ler. Aliás, gosto de ouvir ler, em geral. Mais do que ouvir alguém contar uma história (fico sempre um bocadinho embaraçado quando assisto ao acto criativo de alguém, para mim, ou seja, no meu caso, o acto criativo é sempre uma coisa solitária), gosto de ouvir ler. Em Portugal fazem-se muito poucas sessões de leitura, e é pena, porque gosto de ouvir ler.
Gosto de comprar cds de poesia dita, apesar de haver muito poucos. Ditas quer por actores (como os discos do grande Mário Viegas, ou os do João Villarett, cuja audição quando era puto me fomentou a curiosidade de ir ler os poemas e eventualmente ficar a gostar de ler poesia), quer pelos próprios autores. Tenho alguns cds de poemas ditos, mas são poucos, muito menos do que gostaria de ter.
Quanto aos áudio-livros propriamente ditos, acho que tem piada ouvi-los no carro. Apesar de eu demorar pouco tempo nas viagens para e do trabalho (tinham de ser very-short-stories!), acho que deve ser engraçado ouvir livros no trânsito ou mesmo em viagem.
Só tenho um áudio-livro, uma edição muito antiga do Delfim, do JCP, editado pela Dom Quixote em cassetes (mesmo antigo...). Já tinha lido o livro, mas mesmo assim deu-me gozo ouvi-lo de novo. Destes áudio-livros que começaram recentemente a ser editados, em cd, ainda não tenho nenhum, mas é só porque ainda não houve nenhum título que me despertasse suficiente curiosidade.
Claro que os áudio-livros não substituem o objecto livro, e o gozo de ler. Ainda um dia destes dias estava a pensar, a propósito de mais uma tentativa de lançar um modelo de e-book (desta vez pela livraria on-line Amazon.com), como o livro, sendo aparentemente um objecto frágil, a que a grande massa vota algum desprezo, é de facto um objecto forte de tão perfeito que é. É de certo modo o único, ou pelo menos dos poucos, objectos que resistiu à revolução em curso de substituição dos velhos formatos comunicacionais por tecnologia digital. Aliás, o livro é tão perfeito que tem-se mantido praticamente inalterável desde que foi inventado, ou pelo menos desde que foi inventada a impressão. E a prova é que todas as tentativas de lançar e-books têm falhado.
Por o livro ser um objecto tão perfeito, e por a leitura ser o modo mais excitante de viver uma aventura sem sair do sofá, é que não me parece que faça sentido falar em áudio-livros como substitutos dos livros. Mas já acho piada a serem assim uma espécie de sucedâneos, para quando não podemos fisicamente ler um livro, ou mesmo para quando queremos apenas saborear o prazer de ouvir alguém ler um livro.

Já que estou com a mão na massa, duas notinhas. A primeira para dizer que foi um prazer ouvir o Mário Soares ontem, no programa Câmara Clara, a falar sobre livros. Não por uma questão de erudição, mas simplesmente pelo óbvio gozo que Soares sente apenas em manusear os livros, em discorrer sobre eles. Um gozo que contamina quem o está a ouvir.
A outra nota é muito triste. Um dia qualquer da semana passada vi umas imagens do José Saramago na televisão a propósito de uma exposição sobre o escritor creio que em Lanzarote. Não ouvi a notícia, pois estava num lugar público e o televisor estava sem som, mas pelo aspecto físico, parece-me óbvio que se há-de estar a passar qualquer coisa de mal com a sua saúde. Detesto falar nestes assuntos assim em público, é sempre uma enorme falta de pudor ou, pior ainda, de educação. Mas sirva só para dar testemunho de solidariedade e de um profundo respeito por aquele que é, para nosso privilégio, o maior escritor português vivo, e um dos maiores de sempre.