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tcheka + birkin
rosas
innersmile
Dois concertos ontem no Teatro Aveirense, em mais uma edição do festival Sons em Trânsito.

A razão que me levou ontem a Aveiro foi sobretudo o concerto de Tcheka, um músico de Cabo Verde, da ilha de Santiago, muito jovem. Eu comprei o cd, aqui há tempos, e tenho andado muito entusiasmado a ouvi-lo. Ao vivo, Tcheka acelera um pouco o ritomo das canções, mesmo a apelar ao baile. As canções fogem um bocadinho àquilo que estamos habituados na música de Cabo Verde, ou seja, mornas e funanás, é como se fosse uma música mais africana. São canções muito bonitas, simples, sobre o quotidiano (a avaliar pelo pouco que consigo entender), servidas pela voz rouca e doce do Tcheka, que com mudanças de tom e o recurso ao falsete, consegue encher vocalmente as canções. Além disso é um executante exímio da guitarra. Ontem, acompanhado apenas de baixo e percussão (mais dois excelentes músicos que não consigo identificar), e percorrendo as canções do cd Londji, Tcheka conseguiu animar a noite, apesar de, pelo menos a princípio, o público estar um bocadinho frio.

O segundo concerto da noite foi de Jane Birkin, o famoso ícone dos anos 60 e 70, starlette inglesa apaixonada por Serge Gainsbourg, e que deu voz ao célebre e escandaloso Je T'Aime Moi Non Plus.
Bem, foi um dos concertos mais felizes a que eu assisti. La Birkin, mais do que uma cantora, é uma actriz, que usa o charme e a simpatia para cativar e seduzir o público, devolvendo-lhe um aconchego caloroso mas sempre elegante. Percorrendo as canções dos seus dois mais recentes cds, Rendez Vous (que eu tenho e não me canso de ouvir) e Fictions, muito do concerto assenta em clássicos de Gainsbourg, que Birkin celebra com amor e alegria, mas sem qualquer melancolia fúnebre.
Acompanhada de três excelentes músicos (Christophe Cravero, um homem lindíssimo, no piano e violino, Frederick Jacquemin em percussão e samplings, e Thomas Coeuriot em teclas e cordas várias), e vestida com umas calças cargo e um pull-over em V que lhe acentuava o famoso peito de 'gamin', a Birkin cantou, desceu à plateia, cantou em português (o Leãozinho, de Caetano Veloso), fez fosquinhas ao público, fez adeusinhos com a mão, falou que se fartou, homenageou Aung San Suu Kyi e os monges da Birmânia, contou histórias de Serge. E sobretudo celebrou o próprio concerto, sempre com um entusiasmo contido. Diga-se que o público correspondeu sempre, entre o divertido e o extasiado.

Acho que todas as pessoas, as pessoas normais, como eu, que trabalham das nove às cinco e pagam impostos, e têm hipotecas e sofrem da vesícula, deviam pelo menos uma vez na vida assistir a um concerto como o de ontem da Birkin. Foi, acho eu, a única vez na vida que me senti como se estivesse a participar num filme contracenando com uma diva. E saí do concerto como se trouxesse o Oscar para a melhor cena romântica do ano.

Entretanto, logo à noite há mais Sons em Trânsito e eu lá estarei!





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