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um estranho em goa
rosas
innersmile
Dois dias em casa com uma grande constipação (“E toda a gente sabe como as grandes constipações alteram todo o sistema do universo”, Campus dixit), e aproveitei para ler Um Estranho em Goa, de José Eduardo Agualusa. Gostei imenso do livro, é aliás o segundo livro de Agualusa que leio e de que gosto muito.
O livro fez-me lembrar A Mulher de Porto Pim de Antonio Tabucchi, pela mistura de ficção e realidade, e sobretudo pela característica de serem mais histórias de um lugar do que propriamente histórias num lugar. É um pouco como se os livros, quer dizer, estes dois, procurassem fazer um certo inventário ficcional de um lugar. É uma coisa que me agrada muito, essa tentativa de falar de um lugar ficcionando sobretudo a nossa experiência dele. É quando mais me apetece escrever histórias, precisamente quando sinto necessidade de ficcionar à volta da minha experiência de um lugar. Por isso não admira que este tipo de livro me caia tão bem.
Note-se que Um Estranho em Goa é mais um livro de ficção do que A Mulher de Porto Pim, tem, digamos assim, uma ficção mais elaborada. O livro de Tabucchi retém mais uma característica de caderno de apontamentos, de coisas que se coleccionam para pensarmos melhor um determinado lugar. Mas se a ficção é mais elaborada, Um Estranho em Goa mantém um certo sentimento difuso, impreciso, de quem anda a ver como se mede a partir de um lugar, de uma história, até da história de um país, ou de o que resta de um império.
Porque, para além de dar conta do fascínio irracional que pode exercer sobre nós um lugar, Agualusa, ao fazer assentar todas as premissas da(s) história(s) que conta, e as suas personagens, e até o seu testemunho pessoal, numa certa deriva, com o seu quê de diáspora, pelos cantos do que foi o império colonial português, Agualusa não deixa de fazer um relatório, desencantado mas nem por isso menos sedutor, das ruínas de um império.

Curiosamente, ontem mesmo, Domingo, dia em que terminei a leitura do livro, o programa da Rtp2 Câmara Clara assinalou os 200 anos da fuga da corte portuguesa para o Brasil, em 27 de Novembro de 1807. Uma conversa muito interessante com a historiadora Maria de Fátima Bonifácio, em que se fez o ponto da situação crítico sobre D. João VI, a sua decisão de deslocar a sede do reino para o Brasil quando o invasor francês estava às portas da cidade, e as consequências dessa decisão, nomeadamente a independência do Brasil. O programa fez-me ver até que ponto sou desinformado em relação ao assunto e atiçou-me a curiosidade.

No seu livro Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa trabalha muito a ideia do mal, do diabo, e das suas representações culturais e religiosas, particularmente, como é óbvio, em Goa. Aliás, o livro termina com um extenso glossário de nomes populares que são dados ao mafarrico. Foi um pouco perturbador estar a ler, durante a parte mais febril e convulsa de uma constipação, coisas sobre o diabo, os seus símbolos, as serpentes, em suma sobre as suas ameaçadoras presenças no dia a dia de um estranho em Goa. Ou seja, de cada vez que fechava os olhos e dormitava, sobretudo quando estava febril, começava logo a ter pesadelos com Goa, com o Plácido Domingo e o seu Silêncio, com as serpentes, com corações palpitantes dentro de caixas fechadas, com portões de ferro, com mulheres de língua bifurcada, etc. Um delírio, que me deixou cansado e a precisar de mais fim-de-semana...