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Estou a ler o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor brasileiro Machado de Assis (vou a pouco mais de meio). Há muito tempo que tinha vontade de ler esse livro. Muito por recomendação do meu mestre Saint-Clair, mas também muito porque, de cada vez que passava os olhos pelo livro, me seduziam os capítulos curtos e uma mancha de texto levezinha. Além do título, claro, aquela expressão 'memórias póstumas' deixava antever qualquer coisa de fora do vulgar. Mas também tinha um certo receio. Machado de Assis é um clássico, um escritor do século XIX, e eu sou um leitor demasiado preguiçoso e viciado, e basicamente tinha receio de que o livro me pregasse uma valente seca.

Finalmente as coisas conjugaram-se: encontrei uma edição baratinha à venda (a colecção de livros de bolso dos Editores Independentes), não tinha nada em fila de espera que me apetecesse ler, e decidi experimentar. Pois bem, bendita a hora. Há muito tempo que não lia um livro tão excepcional. Primeiro porque é extremamente divertido, com uma ironia inteligentíssima mas arrasadora (não é frequente estarmos a ler sozinhos e desatarmos à gargalhada só com o poder da escrita). Eu que sou um leitor lento, devoro as páginas. Os capítulos curtos e o estilo muito variado de uns para os outros, ajuda a essa progressão.

A própria natureza do livro é fascinante e sedutora. Como o título indica, trata-se de memórias póstumas, ou seja, o Brás Cubas morreu e, depois de morto, decidiu escrever as suas memórias (o que leva logo no início do livro a uma curiosa distinção entre o autor-defundo e o defunto-autor; o Brás, muito naturalmente, regozija-se por estar a inaugurar esta segunda categoria). O facto de estar morto dá-lhe uma liberdade imensa, claro, pode dizer o que quer porque não corre o risco de ser inconveniente ou de sofrer represálias. E o livro tem essa particularidade de ser, ainda que sempre de forma muito elegante, subversivo. Lemo-lo, quase em cada página, como um monumental exercício de liberdade, de fuga à ordem social estabelecida (mesmo que a vida do Brás Cubas tenha sido uma dança, uma valsa digamos, com a ordem social estabelecida). É incrível esta capacidade de um livro escrito há cento e tal anos, ainda transmitir essa sensação de subversão, quase de libertinagem.

Acho que foi o Saint-Clair que escreveu, ou me disse, que para ele os dois maiores prosadores em língua portuguesa são o Machado de Assis e o Eça de Queirós. E de facto não há maneira de não concordar com ele. Acho que nunca tinha lido um português tão rico, tão variado, tão luxuriante. Tão bem escrito, que ler é um exercício de prazer, de puro deleite. A surpresa de, nesta altura do campeonato, ainda haver língua portuguesa para descobrir, palavras novas, construções frásicas hábeis, uma leveza mas ao mesmo tempo uma profundidade de sentido. É, aliás, nestas ocasiões que eu me sinto tão desapetrechado de meios que me permitam analisar e interpretar e perceber por inteiro um livro tão rico e complexo.

Eu sei que há muita literatura, e que são muito mais os livros que desconheço do que aqueles que li. Mas se neste momento eu fosse obrigado a escolher o melhor livro em língua portuguesa de sempre, acho que escolhia o Brás Cubas. O poder da descoberta deste livro é o das viagens galácticas, esse maravilhamento de estarmos a conhecer algo de extraordinariamente novo e belo mas que sempre esteve lá. Se acham que exagero, atrevam-se, e leiam este livro excepcional.