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Ali na viragem dos anos 80 para os 90 houve um movimento interessante no cinema independente norte-americano, com o aparecimento de uma série de filmes e cineastas que assumiam a sua condição homossexual e a traziam para o cinema, dando-lhe uma perspectiva marcadamente queer. Infelizmente na altura ainda não havia Internet, e o mercado do cinema gravado ainda se limitava praticamente ao vídeo que, em Portugal, praticamente não conhecia expressão que não fosse a dos vídeo-clubes. Apesar de tudo naquela época ainda era possível ver filmes nas salas de cinema, por isso nem tudo era mau.
Um dos realizadores norte-americanos que surgiu enquadrado nessa vaga foi o Todd Haynes, que realizou um dos meus filmes preferidos, Far From Heaven, um filme depuradíssimo, de um rigor extremo, e que antes tinha feito o Velvet Goldmine, um filme a que o tempo e o tema tem atribuído o estatuto de culto. Faltava-me ver os dois primeiros filmes de Haynes, Poison e Safe, o que finalmente pôde acontecer graças a uma caixinha com dois dvds. Tentei ver o Safe mas desinteressei-me, e pu-lo em stand by à espera de melhor oportunidade. Gostei bastante do Poison, inspirado em Jean Genet, e que, através de três histórias diferentes, com estilos narrativos e formais distintos, aborda os que eram (ou ainda são) os principais temas daquilo a que se poderá chamar de agenda queer.

Nos extras do dvd de Poison há uma curta-metragem de Haynes, intitulada Dottie Gets Spanked, que achei fabulosa. É a história de um puto fanático de uma série de televisão (tipo Lucille Ball) e que é gozado por todos por a série ser considerada para raparigas. O filme comoveu-me muito por ser um exercício muito certeiro e conciso acerca do embaraço e da humilhação que se sente quando se é candidamente fiel a uma identidade, sem o filtro moderador da convenção social. Independentemente de me rever ou não naquele tipo de situação ou dilema, a verdade é que me identifiquei em absoluto com os sentimentos que Haynes tão bem transmite, corporizando-os no pequeno Steven, no seu desamparo solitário, no entusiasmo com que persegue as suas fantasias e na incredulidade com que vai constatando que não as pode partilhar.
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