November 2nd, 2007

rosas

a outra margem

Há tanta coisa de que me apetece falar a propósito do filme A Outra Margem, de Luís Filipe Rocha, que talvez seja melhor começar por dizer que gostei imenso do filme. Fiquei muito comovido com aquelas personagens e as suas histórias, o que é a prova de que acreditei nelas, na sua verdade. Irrita-me um pouco aquela coisa de analisarmos um filme no pressuposto de que é português, mas é inevitável dizer que raras vezes vemos um filme português tão eficaz do ponto de vista narrativo, com personagens tão verdadeiras e credíveis. Mais do que sentido do ritmo, o que o filme tem é desenvoltura na maneira como conta a história, com um uso seguro da elipse que contribui para a economia do filme, contornando um hábito muito usual do cinema português que é não resistir à tentação de mostrar, prolongando a sequência para lá do estritamente necessário. Com efeito, tirando, assim que me lembre, duas ou três cenas, em que o realizador cai nessa tentação (estou a lembrar-me, por exemplo, da sequência logo no início em que Vasco e a mãe assistem a um concerto dos Corvos, e que se prolonga mesmo depois de o filme nos passar toda a importância relevante), há uma habilidosa utilização do tempo narrativo.
Para contrabalançar há verdadeiros achados cinéfilos, como a cena em que se vê o carro de Ricardo parado na margem do rio, depois de ele e Vasco terem passado a noite numa discoteca, e que remete directamente para uma cena anterior. É nesta capacidade de contar uma história apenas através das imagens que reside muita da eficácia, e do encanto, do filme.
A que se junta, já agora, uma utilização fantástica do espaço, da vila de Amarante, tornando-a até personagem do filme, ou seja, utilizando-a para, mais uma vez, passar informação ao espectador e para fazer a história progredir. O exemplo mais flagrante, como é óbvio, é aquele em que Ricardo e o pai se confrontam cada um na sua margem do rio, para mais num lugar específico que nós já conhecemos e por isso valorizamos, que é o da pequena plataforma que Vasco e o avô usam para pescar. Mas o meu exemplo preferido é o plano da ponte no centro da vila, com um enquadramento monumental muito bonito, e que Vasco cruza de bicicleta, e que se repete ao longo do filme, sempre muito bem inserido na história, ou seja sem mero valor decorativo, e marcando-a quase como um tema, um refrão.

Para além da eficácia narrativa, o filme distingue-se ainda pela inteligência e sensibilidade com que trata o tema. Inteligência, desde logo, ao eleger a metáfora da diferença física (a que resulta de um acaso biológico, no caso, um portador de trissomia 21) como contraste da diferença social (a que resulta de mera convenção, no caso a homossexualidade, 'agravada' pelo travesti, que serve sobretudo para impedir a invisibilidade da personagem, tornando o confronto inevitável). Mas inteligência sobretudo no modo como utiliza essa metáfora: a diferença mais visceral, mais extrema, a que está totalmente fora do controlo das personagens, aparece sempre como resolvida, dentro de uma certa harmonia, enquanto a que resulta do mero tráfego social é criadora de rupturas e conflitos, e causadora de mágoas e sofrimento. Ou seja, o que está nas nossas mãos resolver, inexplicavelmente não o fazemos, procurando dir-se-ia deliberadamente o confronto, a dor.
Quanto à sensibilidade, o filme demonstra-a no modo como mostra as personagens, sempre pelo lado de dentro, traçando-lhes o retrato interior. Mesmo personagens mais breves, não se limitam a ser meras existências de papel (de luz, neste caso, o que lhes acentua o carácter ilusório). Em consequência, o filme ganha espessura, densidade, e isso torna-o mais credível, mais verosímil.

No entanto, para além de tudo o mais, o que subsiste de mais importante e impressivo no filme são, obviamente, as duas personagens principais, Vasco e Ricardo. Duas personagens que, enclausuradas nos limites da sua diferença, da diferença que a cada um deles delimita, não resistem a mergulhar na diferença do outro, um porque não consegue evitar a curiosidade, outro porque consegue resistir ao desgaste. E é óbvio que dois personagens assim tão radiosos e irresistíveis só se conseguem com o magnífico trabalho dos dois actores que lhes dão, mais do que o corpo, o fôlego, Tomás Almeida e Filipe Duarte.

Sem querer reeditar uma certa discussão, parece-me importante salientar que o filme tem uma evidente e inegável leitura gay. É aquilo que se pode chamar um filme gay. Claro que não se esgota nisso, nem sequer é dominado por essa perspectiva, mas todo o filme se justifica e organiza a partir de um determinado olhar, de um olhar marcado pela diferença, e não por uma diferença qualquer. A história que o filme pretende 'entregar' é esse olhar magoado e sempre um pouco incrédulo e perplexo, de quem não entende uma anormalidade a que está condenado e que lhe é imposta pelos outros. E depois há pormenores, uns mais subtis do que outros, que só fazem completo sentido à luz de uma certa maneira de ver a vida, a partir, digamos assim, d’a outra margem. Ainda na primeira parte do filme há uma cena em que Luís / Carla, colega e amig@ de Ricardo, diz qualquer coisa do género: "Somos todas muito trágicas, e até um pouco mórbidas". Quem escreveu isto, com esta espécie de humor simultaneamente ingénuo e distante, apaixonado e irónico, honesto e teatral, tem de saber muito bem do que está a falar.