October 31st, 2007

rosas

guerra colonial

Passou ontem na RTP1 o terceiro episódio da série documental Guerra, sobre a guerra colonial que Portugal travou durante treze longos anos, entre 1961 e 1974. Talvez ainda volte a falar dela, mas para já algumas notas breves.

A primeira não pode deixar de ir para o excelente trabalho de recolha documental e do acervo de depoimentos, bem como para a cuidadosa linha editorial impressa ao trabalho. Tudo razões para louvar o seu autor, o jornalista Joaquim Furtado.

Outra nota para a pertinência de trazer o tema para a programação televisiva. Nem sequer é, apenas, uma questão de serviço público, mas mais basicamente o facto de haver temas da sociedade portuguesa que constituem matéria de entretenimento televisivo, que podem e devem ser trabalhados. Uma estação de televisão que aproveita e trabalha temas tão importantes da sociedade, está a fazer o seu trabalho, seja ele público ou não, corresponda ele a uma obrigação de contrato e apenas a uma estratégia de programação.

Relacionada com a anterior, uma nota para salientar a oportunidade e a importância de fazer um trabalho desta envergadura e alcance, sobre um dos mais determinantes acontecimentos da história recente de Portugal. Suponho que muitas pessoas, e não apenas as mais novas, as das gerações posteriores ao 25 de Abril, não têm a percepção de que a guerra colonial foi uma coisa séria, muito séria mesmo, e não um mero percalço da nossa modernidade.

Esta espécie de ‘wake up and smell the coffee’ foi particularmente incisivo no episódio de ontem, em grande parte ocupado com as reacções da tropa e das populações portuguesas aos primeiros ataques da UPA, em Angola. As atrocidades cometidas, de parte a parte como é óbvio, mas também pelos nossos compatriotas, por nós, pois aquelas pessoas estão aqui, aquelas pessoas somos nós, os portugueses de aqui e agora, essas atrocidades, o nível de cruel desvario, mostra que, como é sabido, somos todos capazes do pior, e que parafraseando ao contrário a famosa frase, não há rapazes bons! Defendo que este confronto com o pior de nós próprios, com os nossos fantasmas mais incómodos, só nos pode fazer bem. Esquecer sem resolver, nunca é uma boa prática, e os esqueletos no armário têm sempre a tendência de uma dia saírem cá para fora.


Finalmente uma nota mais pessoal, e que tenho alguma dificuldade em abordar. Toda a minha infância, e a memória que dela guardo, está marcada pela guerra colonial. Não vivendo numa zona de guerra, vivi, desde os 5 anos, em 1967, e até ao seu termo, naquela que era a capital da região militar de Moçambique, em Nampula. Tenho inúmeras recordações, memórias mais ou menos nítidas e presentes, relacionadas com a guerra. Convivi de perto com muitos soldados, filhos de amigos dos meus pais que ficavam alojados em nossa casa, enquanto esperavam uma guia de marcha para irem para as zonas de combate, ou que ficavam uns dias a descansar e a retomar um pouco de sanidade antes de irem de férias para junto das famílias.
Lembro-me de um tipo que esteve meses lá em casa a recuperar de um ferimento grave no pescoço feito pelo estilhaço de uma mina. Lembro-me de outro, que veio e trouxe um amigo, que acordava a meio da noite aos berros e a desembestar pela casa toda. Lembro-me de um que metia na boca uma lâmina de barba, daquelas antigas, de dois fios, e a fazia rodar sobre a língua. Foi um destes soldados que me ensinou a jogar xadrez, e foi outro que me acompanhou no primeiro (e único) torneio de xadrez em que participei. Foi outro (o Zeca Zulo, que era um irmão, nessa altura mais irmão do que meu irmão) que me deu os meus três primeiros livros do Astérix, e me ensinou o alfabeto das transmissões militares (alfa, bravo, charlie, delta…) que até hoje sei de cor. Foi com vários desses tipos que aprendi as canções do chamado cancioneiro do Niassa, que ainda sei de cor, e que os meus pais me proibiam de cantar fora de casa, por razões que, na altura, eu não compreendia de todo (uma dessas canções apareceu no episódio de ontem, cantada pelo seu autor, o Luís Cília: «rola sangrenta uma bola no chão de Angola»).
São, com efeito, muitas recordações, algumas ténues, outras muito marcadas, que não param de surgir quando começo a pensar no assunto, e que ainda me comovem muito (fiquei a tremer, por ter escrito o parágrafo anterior). Aliás é curioso o seguinte: tenho ido assistir à série na companhia dos meus pais, e ontem apercebi-me de que estávamos os três a olhar fixamente para o televisor, sem descolar o olhar, quase sem trocar palavra durante todo o episódio. Não é só concentração, é mais do que isso, é aquela atenção de quem, de algum modo, está também a ver a sua vida a passar pelo ecrã do televisor.