October 26th, 2007

rosas

perfumadas de magnolia, rociadas de mañanita

- O que tocam as tuas mãos? 'Uma veredita alegre, com luz de lua ou de sol'. Lembras-te?

- Lembro-me de uma noite quente, de um hotel colonial no meio da selva, entre um luxuriante jardim de palmeiras e pavões, e ruínas arqueológicas que são uma maravilha do mundo. Comemos sopa de lima, antes de passearmos pela escuridão do jardim, e atrevermo-nos a passar para fora dos portões de ferro.

- O passado é uma fotografia, e outra, e outra. Um observatório no alto de uma colina suave, entrevisto pela arcada do hotel. O braço esticado segurando a máquina fotográfica e a brancura da camisa. Como é que consegues tocar essa brancura, a glauca impressão dos dias?

- Lembro-me da cor da camisa dos homens, dos músicos. Das mãos tingindo as cordas da viola. Lembro-me das vozes, a cantar em harmonia.

- Tomas nota no teu caderno, apontas as direcções da estrada, as distâncias quilométricas, os nomes dos restaurantes e as ementas. A sucessão dos suaves eventos: chegada ao cair da tarde, as sandálias cobertas de pó, a sopa de lima, uma Margarita bebida no pátio deserto, um telefonema intercontinental feito quando ainda não havia ninguém em redor, o passeio madrugador pelas veredas do jardim, a luz limpa que não sai nas fotografias.

- Lembro-me da canção. Só há uma maneira de a recordar, invocando Chabuca. Escrevo por entre mentiras, vou entretecendo as memórias com mentiras, por vezes o que nos resta, as palavras, são gastas e esfarrapadas como um trapo, mas as mentiras da memória são, afinal, as poucas verdades que nos restam.