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«If it were possible (and perhaps someday physics will make it possible) he would like to own a device akin to Well’s time machine, but more modest in purpose, designed so that one might leap over awkward moments and into a more tolerable future. Instantly. If you had such a machine, you would never have to wait for the results of an examination to be posted, or judge whether the newly arrived “Ph.D.” from Princeton was going to answer your advances with friendliness or hostility. Instead you could just pull a lever or push a button and be already in possession of your exam results, or on the way to bed with the friendly “Ph.D.”, or safe at home after being rebuffed by the hostile one. And if you knew that you wouldn’t have to go through this things, then you wouldn’t have to dread them.»

- David Leavitt, The Indian Clerk

O que nunca pára de nos assombrar na literatura é a sua capacidade de explicar a vida, de nos explicar a nós próprios.
Progrido lenta mas entusiasticamente pelo mais recente livro de Leavitt, um romance que conta a história real do encontro entre o mais brilhante matemático inglês do seu tempo e um génio da matemática indiano e autodidacta. O livro é narrado pela perspectiva do inglês, G.H. Hardy e, para além da brilhante reconstituição histórica (e mental) da Europa durante a I Grande Guerra, é sobretudo admirável no modo como constrói uma certa maneira de estar na vida que ainda é muito o da minha geração (não faço ideia se ainda é o das seguintes).
Apesar de ainda ir a cerca de um terço do livro, trata-se, para mim, do melhor livro de David Leavitt.

Entretanto, um novo livro de Frederico Lourenço, Caracteres, que traça trinta brevíssimos, mas muito divertidos, retratos de alguns novos tipos urbanos. Como sou um rústico, não tenho bem a certeza mas pareceu-me que algumas das vinhetas são ainda sarcásticas caricaturas de algumas figuras do milieu literário ou cultural lisboeta.

Finalmente um novo livro de poemas de Mia Couto, Idades Cidades Divindades, apenas o seu segundo numa carreira literária sobretudo dedicada à ficção é à crónica. Ainda só desfolhei, mas pareceu-me uma poesia bastante mais amadurecida do que a do anterior Raiz de Orvalho.


[NTS: os post da The Indian Clerk Week no blog literário The Elegant Variation. Incluem entrevista com o David Leavitt e posts feitos pelo próprio DL.]

hardy
infinito
innersmile
Hoje, depois do almoço, passei pela livraria Almedina Estádio com a ideia procurar um código de trabalho. Dirigi-me para a sala do fundo onde estão as edições jurídicas e o único código anotado em que peguei custava 50 euros pelo que decidi adiar esta súbita vontade de me valorizar profissionalmente.

A sala que fica do outro lado do corredor da dos livros de direito, tem uma série de temáticas das áreas económica e científica. Sob a influência do tema do livro do David Leavitt que estou a ler fui espreitar a secção de matemática. Quase só livros de exercícios e um manual de conceitos fundamentais da autoria de Bento de Jesus Caraça, cujo nome me diz mais como resistente antifascista e dirigente comunista do que propriamente como matemático. Note-se que sempre fui um aluno medíocre a matemática e que mesmo isso passou-se há mais de 30 anos, desde que fiz o antigo 5º ano do liceu (que corresponde ao actual 9º).

Desfolhei o livro de Caraça para tentar perceber se eu tenho alguma capacidade de entender o que lá está escrito. Percebi logo que não, é claro, e já estava a virar costas quando lá do meio da estante me chamou a atenção (ou simplesmente 'me chamou') um livrinho de capas vermelhas. Livrinho no formato, pequeno, e no número de páginas, menos de 150. Incrível! Tratava-se de uma edição brasileira com a tradução portuguesa de A Mathematician’s Apology (Em Defesa de um Matemático o título em português), da autoria de G.H. Hardy, precisamente a personagem principal, ou uma das personagens principais, de The Indian Clerk, o livro de David Leavitt que estou a ler (se não a personagem principal, pelo menos aquela que Leavitt usa para o ponto de vista da narração).

Trata-se de um ensaio publicado em 1940, que mais do que um livro de matemática é sim um ensaio sobre a matemática, e que foi considerado pelo escritor Graham Greene como o mais brilhante ensaio sobre o processo mental da criatividade humana. Para além do ensaio propriamente dito de Hardy (que em termos de génio matemático está na mesma liga de Albert Einstein, só para pormos a coisa em perspectiva), o livro tem uma introdução biográfica de autoria do escritor C.P. Snow onde se relatam muitos episódios que Leavitt recupera para o seu romance, e onde se referem as suas duas parcerias científicas, com J.E Littlewood e com Srinivasa Ramanujan, precisamente o 'funcionário indiano' do título do livro de Leavitt.


Como disse os meus conhecimentos de matemática são menos que nulos. A minha vida profissional ensinou-me a fazer contas de cabeça e a construir fórmulas no Excell para fazer médias e variações percentuais. Mas com a leitura de dois livros de David Leavitt, primeiro a biografia que escreveu sobre Alan Turing, um dos pais do computador, e agora este romance sobre Hardy e Ramanujan, de repente confronto-me com conceitos e com a linguagem da matemática. A maior parte deles não os entendo de todo, uma incompreensão absoluta. Mas outros começam a fazer algum sentido, como o conceito dos números primos. Muito por mérito da linguagem elegante e clara de David Leavitt, começo a perceber o fascínio dos números primos, e começo mesmo a fascinar-me com eles, com o seu bailado perfeito: 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29…

Apetecia-me falar aqui sobre imensas coisas deste universo e destas pessoas que me andam a ocupar o espírito. Sobretudo sobre Godfrey Harold Hardy que, pelo menos no retrato que David Leavitt traça tem, na minha imaginação, algo de pessoano ou kavafyano. Por agora não resisto só a acrescentar que, ao contrário por exemplo do que acontecia com Einstein, Hardy preferia, como matéria de trabalho, a matemática pura à aplicada. Não sendo exactamente um pacifista (estava disposto a ser alistado na I Guerra Mundial), Hardy abominava a utilização bélica do trabalho dos matemáticos.