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chegando num sorriso
rosas
innersmile
«Tudo é igual quando eu canto e sou mudo»

Um dos miraculosos segredos da música popular brasileira é a forma descomplexada como ela atravessa géneros e correntes até diferentes posturas perante a música e a cultura. Talvez por Portugal ser um país pequeno, vivemos sempre com a preocupação de que alguém nos possa estar a roubar o lugar, e isso torna-nos mesquinhos e invejosos. O Brasil é um país imenso, há sempre lugar para mais alguém. Não suponho, como é óbvio, que não haja juízo de valor, mas a diferença é que esse juízo não carrega preconceitos ou complexos de casta.
No Brasil é possível gostar de Caetano Veloso e de Roberto Carlos de uma maneira como em Portugal não possível gostar, por exemplo, de Sérgio Godinho e de Tony Carreira (pecador me confesso, só gosto do Sérgio: quero acreditar que é apenas por uma questão de gosto musical, mas sabe-se lá).

Em 1971 Roberto Carlos gravou uma canção que Caetano Veloso fez para ele, Como Dois e Dois. Que eu saiba, a primeira vez que Caetano registou ele próprio essa canção em disco, foi agora no cd Cê Ao Vivo, aliás não me lembro de o ter ouvido sequer cantá-la ao vivo. Caetano Veloso prepara com uma criatividade muito rigorosa as suas digressões (e é por isso que faz tanto sentido que ele as grave quase sempre em cd), recuperando do seu songbook as canções que fazem sentido para a proposta musical que, em cada momento, está interessado em desenvolver. Por isso, para o show de Cê Ao Vivo recuperou tantas canções da sua fase londrina, porque essas canções têm uma espécie de aspereza roqueira que rimava muito com o tom geral do disco de originais Cê.

Encontrei no YouTube uma gravação extraordinária, e, pelo que percebi da leitura das comentários, inédita, de um show televisivo de Roberto Carlos e Caetano, onde cantam, precisamente, Como Dois e Dois. O ano é 1975, e Caetano denuncia, muito mais do que Roberto, a sua ligação ao ‘ar do tempo’. O que também é curioso e significativo: uma das suas características, e sem dúvida uma das suas qualidades, é essa capacidade arguta de, em termos musicais, perceber sempre, e deixar-se contaminar, pelo que é novo no mundo da música em cada época. A prova do seu génio é que as suas canções nunca ficam prisioneiras disso.



«Quando você me ouvir cantar
Venha não creia, eu não corro perigo
Digo, não digo, não ligo
Deixo no ar
Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar

Tudo vai mal, tudo
Tudo é igual quando eu canto e sou mudo
Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto
Sinto alegrias tristezas e brinco

Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco

Quando você me ouvir chorar
Tente, não cante, não conte comigo
Falo, não calo, não falo, deixo sangrar
Algumas lágrimas bastam pra consolar

Tudo vai mal, tudo
Tudo mudou não me iludo e contudo
A mesma porta sem trinco, o mesmo teto
E a mesma lua a furar nosso zinco

Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco»



No mesmo disco de 1971 onde aparecia Como Dois e Dois, Roberto Carlos gravou igualmente Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, uma das canções mais bonitas e inspiradas das imensas que Roberto escreveu no âmbito da dupla criativa que estabeleceu com Erasmo Carlos. Lembro-me perfeitamente de ouvir essa canção cantada pelo Roberto Carlos, e lembro-me quando a ouvi pela primeira e deslumbrada vez cantada pelo Caetano Veloso naquele que é, na minha opinião, um dos melhores discos da sua discografia, o Circuladô Vivo.
Quando percebemos que essa canção foi escrita por Roberto e por Erasmo dedicada a Caetano Veloso que estava então a viver o seu exílio londrino, as palavras adquirem um sentido cristalino e comovente.

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