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amor mais que discreto
rosas
innersmile
Entre o concerto de Sábado passado e a promessa da repetição já aí à frente, continuo sob o signo de Caetano Veloso.

O cd com o registo do show de Cê ao vivo, como aliás normalmente acontece com os habituais discos ao vivo do cantor, não se limita a ser mera transposição para concerto do alinhamento do disco original. Desta vez, como costuma acontecer, Caetano repesca uma mão cheia de canções do disco que origina a tournée (seis, neste caso), retoma canções do seu songbook (e como ele é vasto e riquíssimo, há sempre tesouros disponíveis), aproveita para gravar canções que fez para outros intérpretes, e caetaniza canções de outros compositores (apenas uma neste disco, costumam ser mais).

O que já não costuma ser muito habitual (se bem me lembro) é Caetano aproveitar estes registos ao vivo para lançar novas canções, como acontece neste Cê Ao Vivo. De alguma forma, pressente-se que esta canção já não saiu do contexto criativo de que resultou o Cê. É um outro Caetano, de certa forma mais parecido com o que estávamos mais habituados: uma letra riquíssima, complexa e subtil, que revela, tanto quanto esconde, um tema que a mim pessoalmente diz muito. Como sempre acontece com Caetano, podemo-nos sempre rever nas suas palavras, senti-las por dentro como se fossem nossas, ou melhor, como se elas nos expressassem.

Uma das razões porque Caetano Veloso é tão importante na minha vida é porque parece sempre haver uma canção sua que comenta a minha vida, o momento da minha vida que estou a viver ou a atravessar. Quando a li, ainda antes de a ouvir no cd ou ao vivo no concerto do Coliseu, percebi-lhe imediatamente o sentido, ainda que, o que para o caso é totalmente irrelevante, esse sentido que eu percebi tenha sido eu a dá-lo no preciso momento em que a li.

É uma canção de uma beleza imensa, quase infinita, que nos desvela o corpo e nos revela a mente. AMOR QUASE DISCRETO:

«Talvez haja entre nós o mais total interdito
Mas você é bonito o bastante
Complexo o bastante
Bom o bastante
Pra tornar-se ao menos por um instante
O amante do amante
Que antes de te conhecer
Eu não cheguei a ser

Eu sou um velho
Mas somos dois meninos
Nossos destinos são mutuamente interessantes
Um instante, alguns instantes
O grande espelho
E aí a minha vida ia fazer mais sentido
E a sua talvez mais que a minha,
Talvez bem mais que a minha
Os livros, filmes, filhos ganhariam colorido
Se um dia afinal
eu chegasse a ver que você vinha
E isso é tanto que pinta no meu canto
Mas pode dispensar a fantasia
O sonho em branco e preto
Amor mais que discreto
Que é já uma alegria
Até mesmo sem ter o seu passado, seu tempo
O seu agora, seu antes, seu depois
Sem ser remotamente
Se quer imaginado
Se quer imaginado
Se quer
Por qualquer de nós dois»
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