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grass, faria, leavitt
infinito
innersmile
Comecei a ler a autobiografia de Gunther Grass, Descascando a Cebola, mas parei ao fim de quatro ou cinco capítulos e de centena e meia de páginas. Há alguma coisa no estilo mastigado do escritor, no uso da sintaxe, que me distrai. Começo a saltar frases, depois parágrafos, páginas inteiras. Quando dou por mim a saltar para o capítulo seguinte, o melhor é mesmo pôr o livro de lado e passar ao próximo. Mas devo dizer que tinha muita curiosidade em ler o livro. Do autor só tinha lido O Tambor, na altura em que saiu o filme de Volker Schlondorf, e tinha-me impressionado muito aquele pessimismo culposo, uma angústia mais sociológica do que psicológica, e que marcou de certo modo toda a vida mental alemã deste o final da Segunda Guerra até à unificação das duas Alemanhas. Alguma coisa da minha relação complicada com a esquerda passou, de resto, por certa dificuldade de convivência com este pessimismo alemão, fruto de algumas leituras e sobretudo de muitos filmes vistos ali na dobra da década de 60 para a de 70.

Entretanto, e para compensar, li numa fervurinha o livro de Rosa Lobato de Faria, A Alma Trocada. Como, suponho, muitas outras pessoas (que têm um bocado a mania de que são espertas…) tenho um certo preconceito em relação à RLF, acho-a basicamente uma daquelas tias benzocas. Trata-se, mais não fosse, de um preconceito desmemoriado, porque a lembrança primeira que eu tenho dela tem a ver com as suas participações, enquanto actriz mas sobretudo enquanto autora de textos, sobretudo de poemas para canções, nos programas do Herman José nos bons velhos tempos em que o seu humor era irresistivelmente fresco e desconcertante.
E este livro claro que ajudou a dar cabo desse preconceito. Num artigo que publicou no Ípsilon da passada sexta-feira e no seu blog Da Literatura a propósito deste livro mais recente da RLF, o Eduardo Pitta dizia que a desenvoltura da escrita da autora só surpreende quem confunde a literatura com a experiência de vida. Lembrei-me muito desta frase ao ler o livro, porque de facto é disso que se trata, de uma pessoa que à partida, e com base naquilo que conhecemos dela (o que inevitavelmente induz um certo erro de paralaxe), julgávamos desapetrechada para tratar determinado tema, e como, afinal, nos surpreendemos, mais do que ela nos surpreende a nós, com a sua capacidade de nos falar de coisas que nos dizem respeito.
Quando disse que li o livro numa fervura, é porque o li num instantinho, em meia dúzia de horas repartidas por dois dias, mas também porque o li num alvoroço, num alvoroço comovido. O livro conta a história de um coming out, que é mais do que uma saída do armário, pois trata-se mais de aceitar e assumir perante nós próprios uma determinada característica identitária que, à partida, e em condições normais, preferíamos não possuir, do que o quase sempre inevitável passo seguinte, que é assumir essa característica perante os outros, familiares, amigos ou colegas. E é por isso que o livro é tão comovente, porque é um relato feito na primeira pessoa do singular por alguém que tem de travar uma luta quase sempre muito dura, e não raras vezes angustiada, para aceitar o facto de que ser homossexual não é uma diminuição, uma limitação ou uma deficiência, mas apenas uma maneira, particular mas tão válida como todas as outras, de estar na vida, de viver a vida. Pode parecer pouco, mas se pensarmos que um tipo cresce, forma-se em termos de personalidade e ser social e cultural, a lidar com o facto de algo que sente em si como natural é alvo de forte repressão e censura social (e política, muitas vezes), tão forte que pode atingir o patamar da violência física, percebemos que é, ou pode ser, uma tarefa hercúlea.
No livro de RLF este processo de coming out está, como é óbvio, envolto em toda uma série de dimensões romanescas e de peripécias, algumas delas com o seu quê de rocambolesco, servidas por uma galeria de personagens interessante mas um pouco desequilibrada, que vai de uma personagem fascinante e complexa como é a avó Jacinta (ou mesmo o subtil mas um pouco tipificado Tinito) até uma personagem como a Raquel, condenada a ser a má da fita e, talvez por isso, sem qualquer espessura psicológica ou dramática. Mas é de facto a figura do protagonista-narrador, Teófilo, que nos prende desde a primeira linha, e parece evidente que foi ele que fascinou a autora, e que foi nele que a autora investiu toda a carga emocional, afectiva e humana. Este romance é dele, é ele.

Já esta semana comprei o último livro do David Leavitt, The Indian Clerk. O livro acabou de ser editado e a versão paperback já está à venda na Fnac. Hurray! É um tijolo de 500 páginas que comecei logo a ler no dia em que o comprei (e em parte responsável por ter posto de lado o livro de Gunther Grass), e que ficciona uma história verdadeira, a do matemático inglês G. H. Hardy e de um génio da matemática indiano e pobre. É interessante como o Leavitt, depois da biografia que escreveu sobre o Alain Tunning parece continuar fascinado pelo mundo da matemática. Aliás apesar de ainda só ter lido uma dezena de páginas, já começaram a aparecer as malfadadas (porque absolutamente incompreensíveis, para mim) fórmulas! Por outro lado, por causa de se basear numa história verdadeira, e de se passar mais ou menos na mesma época, o livro faz-me lembrar um outro do Leavitt, e que é um dos que eu mais gostei, Enquanto a Inglaterra Dorme, o livro que valeu ao autor um processo judicial instaurado pelo poeta inglês Stephen Spender (o autor de O Templo, onde relata as suas aventuras berlinenses, juntamente com W. H. Auden e Christopher Isherwood) que acusou Leavitt de lhe roubar a biografia para escrever o livro.