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baby you can drive my car
rosas
innersmile
As mães prestimosas do livejournal (enfim, não as mães DO livejournal, se é que ele as tem, mas as mães que andam por aqui pelo livejournal) que me perdoem, mas se há moda que arrelia é a de andar com as crianças por todo o lado.

Antigamente, no tempo em que os animais falavam, tipo o século passado, o território por excelência das crianças era o doméstico, o familiar, o íntimo. Quando muito, se se aventurassem para fora do lar, era apenas até ao jardim mais próximo. Recentemente, e à medida que a nossa sociedade se infantilizou, e em que o balanço familiar se desequilibrou a favor do lado infantil, as crianças começaram a ocupar o espaço público. Os restaurantes, primeiro, e depois aos poucos todo o tipo de espaços públicos. Já me aconteceu estar em funções culturais especificamente designadas para adultos (concertos, espectáculos de dança ou teatro) e haver crianças minúsculas presentes, que se aborreciam de morte ao fim de breves minutos, e a única forma de não sucumbirem à dita é falarem alto, choramingarem, andarem a passear pelo corredor a palrarem amenamente.

Esta ocupação do espaço público começou pela ordem inversa à idade: primeiro os mais velhinhos, pré-adolescentes, depois os da escola primária, a seguir as crianças em idade pré-escolar, e, mais recentemente, a jóia da coroa, os bebés, cada vez mais recém-nascidos.

O grande espaço nobre do puerpério é, sem sombra de dúvida, o centro comercial. Um olhar mais distraído pode não se aperceber que os centros comerciais, e quanto maiores melhor, foram feitos especialmente para as famílias levarem a passear as suas proles recém-nascidas. E com que orgulho o fazem, papás e mamãs brilhantes de orgulho (e de suor) passeando com ar imponente dezenas ou mesmo centenas de bebés pequeninos e descontrolados.

A aventura começa logo no parque de estacionamento, onde se criam verdadeiras linhas de montagem. Enquanto um dos progenitores tenta manter sob controlo 'os mais velhinhos', o outro tenta desesperadamente pôr em função o afamado carrinho de bebé, que vem desmontado na bagageira.
Estes carrinhos de bebé, que antigamente eram frágeis aranhiços em equilíbrio instável, são hoje em dia espaçosos e robustos carros blindados, que atacam, em formação, os corredores dos centros comerciais e o interior das suas lojas.

Um destes dias vinha eu pelo corredor central da Fnac quando o meu telemóvel começou a vibrar no bolso das calças. Como já estou um bocado periclitante abrandei um pouco o andar, saquei do telemóvel e parei para poder ler a mensagem. Nesse preciso momento, fui abalroado, por detrás, por um carrinho de bebé de vigorosos pára-choques. Acusei o toque, em sentido literal, e desviei-me um pouco para o lado, para dar passagem. Nesse preciso momento, sou novamente abalroado por um outro carrinho de bebé, mais propriamente por uma das suas embaladeiras. Em pânico, rodopiei sobre mim próprio de modo a poder olhar para o sentido do trânsito e tentar perceber se haveria escapatória, e, de lado, encolhi a barriga (meu deus, que esforço) de forma a tentar passar por entre os carros de bebé sem me sangrar. Claro que nesse momento fui atropelado por um terceiro carrinho de bebé, com uma imponente grelha frontal, que vinha de frente. Não me lembro bem do que aconteceu a seguir, mas devo ter dado um daqueles saltos dos filmes de kung-fu, com vários mortais empranchados, porque quando dei por mim estava a vários metros de distância, junto do balcão das revelações fotográficas. Balbuciando desculpas, com voz agonizante, olhei na direcção do local do acidente, onde um imbróglio de carrinhos de bebé ocupava toda a faixa de rodagem e três pares de jovens pais (eles de tatuagens tribais nos bicípites expostos, elas de seios inchados de leite encaroçado) me olhavam com olhar agressivo e denunciador.

Claro, afastei-me da loja em passo lépido, pensando ir recuperar num daqueles banquinhos artísticos que há ao longo dos corredores. Pois bem, todo o extenso e largo corredor que vai da Zara à Pull and Bear, incluindo a ilha do CityBank, estavam ocupados por centenas de carros de bebés estacionados, e uma profusão de tupperwares, boiões, biberões e copos de plástico com tampa eram utilizados, a céu aberto, para alimentar os seus esfomeados ocupantes. 'Pit stop time', pensei eu (em inglês) enquanto me dirigia em passo de corrida para o meu próprio utilitário!

Estou já inteiramente recuperado (obrigado por perguntarem), e, apesar das sequelas, já consigo fazer a minha vida normal. Graças a deus há as vendas on-line.
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