October 3rd, 2007

rosas

conto: gamão

GAMÃO

Há uma parte da tua vida que me escapa. Sentamo-nos na esplanada vazia, tu abres a caixa de cartão amarela, e desdobras o tabuleiro de gamão, que é maior do que a superfície da mesa, e distribuis as pedras pelas casas triangulares. Enormes plátanos cobrem por inteiro a rua, tornando a esplanada fresca e sombria. A empregada do café fez o gesto de se levantar quando nos viu aproximar, mas tornou-se a sentar num banco alto junto do balcão, concentrando-se nos papéis espalhados à sua frente.

A esplanada vazia é o primeiro sinal de que a Verão terminou. A esta hora só turistas ocupam as mesas. Nós fomos os que ficámos para trás. Deitamos os dados. Decidiste que jogavas com as pretas e tiras o número maior. Começas a jogar. Deitas os dados e tiras 5 e 3, um movimento clássico. Bates as pedras com força, e o barulho da madeira a bater parece que ressoa pela rua deserta, sobrepondo-se ao restolhar suave das folhas das árvores.

Jogo eu, 6 e 1, outro movimento clássico. Esta saída indica-nos que vai ser um jogo equilibrado. É então que, ao fundo da rua, já em plena praça, um homem assoma à porta de um café. É um homem jovem, bonito, de peito saliente e braços fortes, um rosto quadrado de super-herói de banda desenhada, acentuado pelos óculos minúsculos, sem aros. Tu, de frente para a praça, começas a chorar. Lágrimas silenciosas que deslizam pelas maçãs do rosto e morrem nos cantos da boca.

Jogas 2 e 1, e distribuis as pedras da casa 24, que ficam desprotegidas. Eu pego no dado das apostas e dobro o valor dos pontos. Quando vou iniciar a jogada, um avião descola do aeroporto vizinho e eu volto a cabeça para cima, a tempo de o ver a descrever uma curva acentuada para norte, que o leva para longe desta ilha.