October 2nd, 2007

rosas

dvds

Nestas últimas duas semanas fartei-me de ver filmes em dvd. ‘Fartei-me’ é, naturalmente, uma força de expressão. O pior é que o meu clube de vídeo tem sido mesmo a Federação Nacional Alegria nas Compras, que significa muitos euros gastos. O facto é que têm aparecido uns dvds jeitosos a bom preço e que obedecem à minha rule of thumb: só comprar dvds de filmes com mais de 20 anos e/ou que custem menos de 10 euros (enfim, todas as regras se fizeram para serem quebradas de vez em quando).

Assim, revi o Odete, do João Pedro Rodrigues, e acho que ainda gostei mais do filme agora, em revisão, do que tinha gostado quando o vi nas salas. Talvez porque já se dissipou o efeito de choque, talvez porque não haja a tensão de estar na sala a ouvir o pessoal mandar bocas ao filme, mas a verdade é que desta vez liguei mais à história e ao próprio modo como está construído o melodrama e achei o filme mais conseguido. Ajudou-me a perceber melhor o filme o facto de ter visto com a opção de comentários ligada e, como faço quase sempre, ter visto os extras antes de ver o filme. Por outro lado, não achei a presença do Nuno Gil tão assombrosa como tinha achado quando vi o filme em sala.

Não me lembrava de ter alguma vez visto The Apartment, de Billy Wilder, com o Jack Lemmon e a Shirley Maclaine, mas é um bocado incompreensível como é que isso possa ter acontecido. Para mais, é um dos filmes mais famosos de Wilder, vencedor de prémios da academia, e realmente um filme bastante popular. Trata-se de mais uma comédia à Wilder, ou seja, cheia de mal-entendidos, e de subentendidos também, de ambiguidades, e, claro, de fortes beliscões à moral, sexual e não só. É fantástico, e tão divertidamente fascinante, ver como as personagens dos filmes de Wilder se entregam ao tráfego mais amoral, e muitas vezes mesmo imoral, como nunca soltam uma simples gotinha de suor ao fazê-lo, e como no fim os pecadores nunca são castigados, apesar de haver uma espécie de justiça divina que acaba sempre por salvar os bons da fita. Digamos que com Wilder prevalece sempre o princípio anti-burguês de que toda a nudez será recompensada.

Entretanto a Fnac cá de Coimbra organizou duas estantes com dvds com filmes sobre orientações sexuais alternativas. Está discreto, até porque a maior parte dos títulos são praticamente desconhecidos, mas a verdade é que lá estão eles. Ainda só comprei um, e há pelo menos mais um que não queria deixar de ver, um documentário intitulado Fabulous, sobre a visibilidade do cinema queer no cinema americano das últimas décadas (ou será de todas?, não me lembro). Tenho ideia de ter visto este filme anunciado no programa desta mais recente edição do festival Queer Lisboa. Aliás, agora que penso nisso muito provavelmente foi o festival que deu pretexto à Fnac para pôr estes títulos à venda. Entretanto, já trouxe Cut Sleeve Boys, uma comédia romântica gay (*roll eyes*) passada na comunidade chinesa de Londres, realizada por um tal Ray Yeung. O filme não é assim muito muito interessante, mas os rapazes são engraçados (muito mais giros do que bons actores) e é curioso checkar o state of the art de um certo estilo de vida gay, que cada vez se afirma, e se aprisiona, em meia dúzia de lugares-comuns. A título de curiosidade, conta-se no filme que a expressão ‘cut sleeve boy’ é um eufemismo chinês para homossexual, e deve a sua origem à história de um imperador chinês que estava deitado com o seu amante. O amante adormeceu sobre a manga do quimono do imperador, e quando vieram chamá-lo para tratar de assuntos de estado, o imperador, para não acordar o amante, cortou a manga do quimono e apareceu publicamente sem uma manga. Ok, mesmo que não seja verdade, é lindo à mesma!

Entretanto estou a ver Il Caimano, que o Público pôs à venda com a edição do jornal da última sexta-feira, e que, apesar de ainda só ter visto os primeiros 20 minutos, me pareceu Moretti vintage, cheio daquela provocação política e do humor cáustico que fizeram a imagem de marca do (meu) realizador italiano (preferido).