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masculine, paulo ribeiro
rosas
innersmile
Fui ontem à noite num saltinho ao Porto ver, no lindíssimo Teatro Nacional de São João (há que tempos não entrava naquela casa), a última produção da Companhia de Paulo Ribeiro, Masculine. Um espectáculo fisicamente muito intenso, que junta 4 amigos em convívio e interacção sob a égide de Fernando Pessoa, sobretudo Bernardo Soares. A música é de Chostakovich e Frank Zappa (nomeadamente com uma inesperada versão do Bolero da Ravel).
O destaque tem forçosamente de ir para os quatro intérpretes, três bailarinos, Romeu Runa, Romulus Neagu e Peter Michael Dietz, e um actor, Miguel Borges, que habitualmente está nos Artistas Unidos. Em primeiro lugar, Paulo Ribeiro tira muito, e muito bem, partido das diferentes ‘escolas’ artísticas dos bailarinos, mas sem nunca criar desequilíbrios entre os intérpretes. Quem não estivesse com muita atenção, por exemplo, não diria que o Miguel Borges não é bailarino, de tal forma a sua performance em palco é coreográfica. E Paulo Ribeiro usa, com subtileza mas extrema eficácia, essas diferenças ‘técnicas’ para criar personagens, que correspondem, mas obviamente não são, as próprias pessoas dos intérpretes.
Mas é sobretudo a vitalidade que os intérpretes põem no seu desempenho que marca indelevelmente este espectáculo. Há uma corrente de energia que liga os quatro e que de forma inelutável atinge a plateia. As reacções do público, que por vezes entra numa espécie de diálogo com o palco, através das gargalhadas, dos aplausos instantâneos, das reacções verbalizadas ao que se vai passando, são a prova da transferência dessa vitalidade. Raras vezes tenho visto (e participado, claro) numa plateia tão tocada pela performance.
É uma tremenda injustiça destacar qualquer um dos intérpretes, mas seria uma injustiça ainda maior não falar do Romeu Runa, e sobretudo do Miguel Borges. O Romeu Runa é um prodígio de movimento, é um tipo que domina completamente o alfabeto da dança contemporânea, a que acrescenta uma presença em palco muito marcada, muito ‘interpretativa’. É de facto um bailarino ao serviço de uma ideia, de uma coreografia, de um papel. E surpreende sempre porque, como é muito histriónico, temos um pouco a tendência para o ver sobretudo como presença, e de repente o tipo saca um passo, um gesto, um movimento que é perfeito e assombroso.
Quanto ao Miguel Borges, são curtas as palavras para dizer que ele ‘É’ este espectáculo do Pulo Ribeiro. Foi realmente uma ideia de génio pô-lo a fazer dança, porque de facto tudo na sua prestação de actor, a sua extrema fisicalidade, por vezes tão visceral que perturba ou incomoda, indicava ou sugeria a possibilidade desta transcendência na dança. Note-se que ele é um actor, e a sua participação neste espectáculo é enquanto actor, nunca cede à tentação de ‘dançar’. Mas o rigor do seu movimento e das suas marcações, e sobretudo a carga energética (diríamos quase propulsiva) que ele põe na sua prestação asseguram muita da vitalidade que, como já referi, transborda deste espectáculo. A ideia de Paulo Ribeiro de aproveitar do ponto de vista coreográfico, toda esta energia, é realmente genial.
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