September 21st, 2007

rosas

orquestra gulbenkian + rosado

Concerto, ontem à noite no Gil Vicente, da Orquestra Gulbenkian, dirigida pela maestrina Joana Carneiro. Que é uma miúda, ou seja, é muito novinha, e faz (boa) impressão vê-la ali a dirigir, com arrebato e firmeza, uma orquestra tão 'pesada'. No programa havia Brahms, uma peça curta a abrir e a Sinfonia nº2 a ocupar integralmente a segunda parte, e o segundo concerto para piano e orquestra de Rachmaninov, com António Rosado como solista.
Eu adoro este concerto para piano, que nunca tinha visto tocado ao vivo. E logo pelo António Rosado, que é um pianista fabuloso. Ainda no Domingo passado foi o António Rosado que tocou a Rapsódia em Blue, de Gershwin, no concerto da RTP, e na altura não imaginava que tão poucos dias depois teria oportunidade de o ver tocar ao vivo, e logo esta obra do Rachmaninov.
Eu sou totalmente desprovido de conhecimentos que me permitam analisar a performance de ontem, mas o António Rosado tem um modo de 'atacar' o piano muito próprio, emocionado mas ao mesmo tempo com uma certa 'souplesse'. Eu já vi alguns bons pianistas tocar ao vivo, quer de música clássica quer de jazz (um recital do Alfred Brendel foi um dos pontos mais altos da minha carreira de espectador) e é interessante perceber as diferenças entre eles, e como essas diferenças ultrapassam a pura técnica, são muito mais formas psicológicas, emocionais, de abordar o piano. E como dessas diferenças resultam 'músicas' igualmente diversas. Talvez porque tenha crescido e formado o meu ouvido musical a ouvir sobretudo rock e música pop (quer no sentido de popular quer no sentido mais top of the pops) entendo perfeitamente a noção de versão (várias e diversas versões para a mesma canção), mas só recentemente comecei a perceber que também na música clássica a interpretação, o modo como cada músico, cada solista, cada formação, interpreta determinado trecho, e até o modo como o ouvinte percepciona o que ouve, dá às obras cunhos muito distintos.

É impossível ouvir o concerto de Rachmaninov sem acumular os clichés: noites de um azul profundo, luares impossivelmente prateados, ondas a despedaçarem na praia, mulheres trágicas e homens devastados. Li muito recentemente mas não me consigo lembrar onde, que um cliché fragiliza a obra, mas que a acumulação de clichés a pode tornar mais intensa e verdadeira. E realmente só assim, num acumular de lugares-comuns de hiper-romantismo derramado, consigo ‘encaixar’ a emoção que este concerto para piano me provoca. Nisso, ou então, claro, numa coreografia da Olga Roriz. Pode parecer um paradoxo, mas o facto de essa coreografia já ter sido feita, não me impede de, sempre que oiço o Rachmaninov, pensar (sentir) que aquela música está à espera que a Roriz a ponha a mover-se no corpo de um bailarino.