September 17th, 2007

rosas

dias estranhos

«Uma linguagem aparentemente simples e bem urdida e situações estranhas, ambíguas, perversas. Os personagens de Dias estranhos, de Saint-Clair Stockler, se movem como se não soubessem qual é a deles. E o autor também não se preocupa em desvendá-los, e sim, na maioria das vezes, em construí-los do modo mais intenso possível.
Alguns dos contos são particularmente expressivos, como Kandahar, em que Hannah, seu amante e seu gato de estimação vivem uma triangulação amorosa em que estão presentes a violência e a ternura, permeadas por suposições vagas, imprecisas como o movimento da areia que escoa entre os dedos. Os trabalhos mais curtos, como Beleza, que abre o livro, são tanto mais impactantes quanto mais conseguem explorar o choque, a possível surpresa que querem provocar no leitor.
Em Ofélia, de Shakespeare, um cenário de violência contra a mulher é presenciado por um garoto, que pode ser o autor. Mas, nesse caso, como em todos os outros, o importante não seria identificar situações reais, e sim pensar a obra como uma entidade relacional, que tece laços numerosos e múltiplos com o mundo. Neste processo estão presentes a história que atravessa o texto, a maneira como ela é narrada, o perfil e o destino de quem a criou, a ressonância que produz em quem a lê, o silêncio que ela impõe ou a fala que pretende produzir.
Os contos de Saint-Clair Stockler muitas vezes dão a impressão de falar baixo para não gritar. Tratam da contemporaneidade, da solidão, do desencontro amoroso, mas não empunham bandeiras nem pretendem indicar caminhos: apenas soam, murmuram como um solo de violoncelo ao crepúsculo.
Eu ficava ali, chamando Deus tem temática homossexual, como vários outros do livro. Este é talvez o mais bem realizado deste bloco: nele, a temperatura erótica sobe e o gótico recurso de um personagem desdobrar-se em outro tem uma carpintaria que o resgata e impulsiona em direção a outros planos.
Quase sempre a temática do relacionamento amoroso está presente, seja gay ou hetero, e também as referências a um casal primordial do cristianismo: Adão e sua primeira mulher, Lilith, expulsa do Paraíso por querer ser superior a seu homem. Referências, aliás, não faltam, de Lygia Fagundes Telles a Lawrence Durrell, muitas delas explicitadas pelo autor com a devida discrição.
Também é de se notar que alguns personagens ganham uma relevância que lhes ultrapassa os limites. É o caso da mulher que descobre uma tatuagem em forma de dragão azul nas costas do amante de seu homem. Esse fato tem conseqüências que atravessam o conto e o destino da personagem, mas ela reage como fêmea ciumenta e também (o que lhe acrescenta em profundidade) como alguém que não permite que a culpa lhe sirva de amarras.
Não se trata, no entanto, de um autor já maduro e, se é possível apontar dificuldades, podemos nos referir ao uso do lugar comum, principalmente no conto Carta ao Amado. Álvaro de Campos escreveu que todas as cartas de amor são ridículas, o que não impede que muitas delas sejam emocionantes páginas literárias. Mas Stockler abusa um pouco ao escrever, por exemplo, “porque você não tem culpa, você nada fez para alimentar os meus sentimentos. Você é meu amigo. Você era meu amigo”. E uma sensação de que já viu este texto trocentas vezes pode se apossar do leitor.
É claro que cada autor a quem se aponte o uso de expressões ou trechos corriqueiros vai reagir dizendo “é intencional”, mas de intenções (boas ou más) o inferno anda cheio e, na realidade, é com tropeços e avanços, alternadamente, que se consegue avançar na literatura. A obra de arte de qualidade é constituída, entre outros elementos, por meio de uma luta dura pela eliminação de seus pontos fracos, o que nem sempre a realidade e a paciência do autor permitem realizar.
Numa outra vertente, diferente da questão amorosa, estão trabalhos como o premiado Bicicletas, que apresenta um certo ar de subúrbio, de angústia noturna revelada com sensibilidade, tem um pé no realismo e um outro na tentativa de ultrapassá-lo.
Em tempo: Saint-Clair Stockler não é um pseudônimo. Trata-se de um mineiro estabelecido no Rio, que mantém um site de literatura chamado Opiário e faz doutorado em literatura na Uerj. Se as trombadas da vida e a luta insana pela publicação em livro não lhe arrefecerem o ânimo, vocês ainda ouvirão falar muito dele.»


É este o teor de uma resenha, escrita pelo jornalista Elias Fajardo, que o suplemento Prosa & Verso do jornal brasileiro O Globo publicou na edição de Sábado passado, dia 15 de Setembro, sobre o livro Dias Estranhos, da autoria do Saint-Clair Stockler.
A resenha refere-se à edição on-line do livro, que está disponível aqui no livejounal em www.diasestranhos.livejournal.com, já que a edição em papel aguarda ainda que uma editora esteja disponível e interessada, o que poderá muito bem vir agora a acontecer, depois da notícia no jornal (que é seguramente um dos de maior circulação no Brasil).

É muito difícil ter distância crítica em relação àquilo que fazem as pessoas de quem gostamos muito. E não é só, ou principalmente, por uma questão de benevolência (ou mesmo piedade pura e simples!) É sobretudo porque estamos tão envolvidos com essa pessoa, tão envolvidos ‘nela’, que a nossa leitura é sempre condicionada por tudo o que sabemos, e a nossa avaliação é sempre feita de acordo com a nossa resposta emocional. Eu não consigo ler um conto do Saint-Clair sem estar a reagir emotivamente, não enquanto leitor, mas enquanto amigo.
Por isso me surpreendeu tanto o teor do texto d’O Globo. Apesar de se tratar de uma resenha, logo uma análise abreviada e nesse sentido superficial, ela encaixa-se muito adequadamente na prosa de Saint-Clair. Dizer, a propósitos dos contos, que eles ‘falam baixo para não gritar’ é de facto um achado para descrever um tipo de escrita em que o sentido parece sempre transbordar em relação à palavra, como se a palavra escrita fosse uma espécie de mínimo denominador comum de uma linguagem que é tão intensa que não tem sequer forma de ser reduzida a escrito. O que dá sempre aos contos do Saint-Clair uma tensão entre uma escrita simples, directa, contida, quase podíamos dizer ordeira, e um mundo de sentimentos e emoções transbordantes, intensos, por vezes transgressores porque inconformados a uma certa mediocridade da mediania, quase sempre desamparados ou mesmo magoados (mesmo quando a linguagem é ligeira e até bem-humorada).

Uma das coisas que mais me impressionou no Saint-Clair à medida que o fui conhecendo mais e melhor, foi o seu profundo compromisso com a literatura, com a escrita. Não sei muito bem explicar o que isso seja, mas é maior do que simples gosto ou jeito para escrever, não tem nada a ver com ambição (com ambição pessoal) ou vontade, e é mais, muito mais, do que a catarse urgente de expressar sentimentos ou reflexões.
É, não tenho outra maneira de o dizer, um compromisso. É perceber o que é a literatura, o que é a escrita literária, por dentro. Saber quando é que ela, por ser maior do que o homem que a escreve, tem o tamanho da vida. E ter a aguda consciência de que, por qualquer determinação do destino ou do acaso, mas que de qualquer forma nos ultrapassa, temos na mão, literalmente, a capacidade de decifrar, e desse modo simplificar, o mundo.