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maurice e linear b
rosas
innersmile
Terminei hoje a leitura de Maurice, o clássico de E.M. Forster que, como se sabe, foca a questão da homossexualidade e que, apesar de escrito na segunda década do século (1916?), foi apenas publicado nos anos 70, após a morte do autor, e por sua vontade expressa. Em 1987, James Ivory fez o filme do romance, o seu terceiro filme com base em romances de Forster, juntamente com Room With a View e Howards End.

Gostei muito do livro, o primeiro de Forster que li. Gostei do estilo, da escrita elegante, da profundidade serena, do modo como vão sendo introduzidos nas peripécias do romanesco os temas que interessam ao escritor.
O tema fundamental do livro é a luta de um jovem da classe média alta inglesa (ou será mais apropriado dizer da classe alta média, uma vez que a classe média ainda estava a ser inventada), para se conhecer, para aceitar aquilo que em si se apresenta como uma grave inconveniência, precisamente o facto de se sentir sexualmente atraído por pessoas do mesmo sexo. E como esse já de si árduo processo de auto-conhecimento é tornado ainda mais excruciante pelo facto de embater em dois dos principais pilares da sociedade: a religião e a classe.

O tema, como se percebe, mantém-se perfeitamente actual, apesar de já ter passado quase um século desde que o livro foi escrito, e desde que essa temática levou o autor a manter o livro fora de edição. Apropria homossexualidade de Forster apenas se tornou conhecida precisamente com a publicação do livro.
Se o aspecto da classe pode parecer à primeira vista um pouco ultrapassado, é apenas porque nos esquecemos de que a conveniência de classe foi substituído, na sociedade contemporânea pelo de pertença social, e que hoje o facto de alguém assumir, não propriamente a homossexualidade, mas sobretudo o facto de viver uma relação amorosa de natureza homossexual pode ser igualmente fonte de tensões e problemas sociais (familiares, profissionais, etc.)


Tenho estado igualmente a ler, ainda consequências das férias em Creta, o ensaio A Decifração do Linear B, de John Chadwick, e que relata, como o título indica, o processo de decifração levado a cabo por Michael Ventris (um arquitecto) desta língua pré-helénica inscrita precisamente em tábuas de barro descobertas no palácio de Knossos, que eu visitei perto de Iraklion. Descontando aqueles trechos que de tão técnicos se tornam eles próprios praticamente indecifráveis para um leigo ignorante como eu, o livro é bastante interessante.

Por um lado, porque nos mostra o processo sempre um pouco detectivesco de descodificação de uma escrita ou de uma língua, e de como há sempre uma dose de ousadia e de risco que acresce a todo o apetrechamento científico. Depois, porque nos mostra como, na arqueologia como em quase tudo o resto, muitas vezes as soluções são mais simples do que a nossa ambição faz supor. Basicamente (e simplificando ao nível do arrepio), o que Ventris (com a ajuda do próprio Chadwick) trouxe ao processo de decifração foi a ideia de associar os topónimos referidos nas tábuas de barro às cidades da antiguidade referidas nomeadamente nos textos homéricos, descobrindo que afinal a linear B era uma escrita de uma variante do grego antigo. Até aí todos os investigadores se tinham recusado a considerar que a escrita pudesse ser uma forma da língua grega, porque isso iria contra o que se sabia da história da antiguidade pré-helénica.

Finalmente o livro é interessante pelos conhecimentos que proporciona acerca das civilizações europeias antigas, particularmente a minóica, quando ainda estão tão frescas as minhas impressões da viagem a Creta.
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uma noite na televisão
rosas
innersmile
A RTP acabou de transmitir um concerto de Verão, para assinalar os 50 anos da televisão em Portugal. O concerto começou com os Tocá Rufar que deram entrada à Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Pablo Heras Casado. Abriu o Derby Day que durante muitos anos foi (ainda é?) o tema de abertura e encerramento da emissão (ok, agora a emissão é contínua…). A primeira parte foi fantástica, com um fabuloso Fandango de Luís de Freitas Branco e a Rapsódia em Blue, de George Gershwin, com o pianista António Rosado como solista. Na segunda parte houve ópera, com a soprano Elisabete Matos: Bizet, Verdi, Puccini e outra vez Gershwin.
O tom informal do concerto, a popularidade das obras tocadas, a ausência dos tiques de novo-riquismo e espalhafato para 'épater le bourgeois', e a excelência do trabalho de realização televisiva, levam-nos a perguntar porque razão a RTP não promove mais concertos destes, criando até uma série de concertos de Verão populares, como os famosos Proms, os concertos Promenade em Inglaterra.

A prova de que a RTP hoje se passou completamente e está a fazer uma noite a sério, é que depois do concerto est á a passar o Brokeback Mountain, do Ang Lee, o famoso filme com o Heather Ledger e o Jake Gylenhaal que o ano passado juntou a palavra gay à palavra western, provocando assim a polémica e ganhando os Óscares, para no fim se concluir que o filme não era bem gay nem era bem um western, mas apenas (apenas?) uma belíssima e comovente história de amor.