September 13th, 2007

rosas

a tuguite

A 'Tuguite' é uma doença lixada, e poderosa. Depois de 4 ou 5 anos à frente dos destinos da selecção nacional de futebol, durante os quais conseguiu o notável feito de pôr a jogar verdadeiros jogadores de futebol, em vez dos tradicionais Tugas, o próprio Luís Filipe Scolari sucumbiu ao 'mal do Tuga' e refugiou-se na velha máxima do futebol Tuga: quando não os consegues vencer ao pontapé, dá-lhes murros no focinho.
Posto isto, bye-bye Mr. Scolari, já não precisamos de si.
rosas

lançá-los pra fora das janelas

Primeiro o Mário e depois a Chuinga desafiaram-me a entrar na corrente da moda, e a falar dos livros, já não percebo bem se os que mudaram se os que não mudaram, se apenas marcaram a minha vida.

Tenho alguma dificuldade em responder ao desafio. Não consigo associar um livro a uma mudança na minha vida, quer dizer a uma mudança que tenha sido tão marcante e radical. A ideia que eu tenho é que a minha vida, quando mudou, mudou devagarinho, por uma sucessão de eventos, coisas que foram acontecendo, umas realmente marcantes, algumas violentas, convulsivas, mas a maior parte das mudanças foram subtis, demoradas no tempo e no efeito.

Marcaram-me os livros que eu li na infância e na adolescência. Porque de certa forma, e reflectindo agora em retrospectiva, os livros foram o que primeiro me compensou de uma certa sensação, que sempre tive desde muito pequeno, que havia alguma coisa em mim que era diferente e que me poderia prejudicar (de que forma, não fazia ideia) no tráfego social. Nesse sentido mudaram-me os livros da Enid Blyton, mudaram-me os livros do Morris West e outros best-sellers da viragem dos anos 60 para os 70, e que eu lia às escondidas tentando desesperadamente (mas concerteza inutilmente) perceber o mistério que havia nos livros para os adultos. Ainda na adolescência, marcou-me muito um livro daqueles didácticos que havia antes (e que se calhar ainda há), e que havia lá em casa numa edição encadernada: A Nossa Vida Sexual. Com 14, 15 anos, foi nesse livro que li pela primeira vez uma descrição da homossexualidade. Tanto quanto me lembro, foi nesse livro que aprendi o nome daquilo que eu sentia que era. Aí está, se houve livro que mudou a minha vida, foi esse. Mais ou menos na mesma altura, veio-me parar às mãos um livro de banda desenhada com pornografia homossexual. Talvez esse livro também me tenha mudado a vida, porque me ensinou que, afinal, aquilo que eu sentia e a que já sabia dar nome, era excitante e divertido. Já mais tarde li outro livro que me impressionou muito, o Querelle de Brest, do Jean Genet, que foi um dos livros mais determinantes na fixação de um determinado imaginário homo-erótico.

Mais ou menos na mesma altura, li um tijolo enorme, de um tipo chamado James A. Michener. Acho que o livro se chamava Torremolinos. Esse livro mudou a minha vida, porque me mostrou duas coisas: que a vida podia ser aventurosa, e que eu não era um aventureiro, e por isso estava, muito provavelmente, destinado a saborear a parte aventureira da vida apenas através da literatura.

No espaço de 10 anos, entre os 14 e os 23, houve três acontecimentos que mudaram radicalmente a minha vida: a independência de Moçambique, a minha vinda para Portugal, e eu ter estado doente. Só o primeiro destes acontecimentos está relacionado com literatura, porque participar nos grupos de continuadores, nas estruturas e nas actividades do liceu, fez-me ler livros e sobretudo deu-me um contacto diário e intenso com a poesia, com a chamada poesia revolucionária.

Durante 7 anos, entre 80 e 87, li os livros que mais mudaram, eles próprios, a minha vida. Falo das sebentas de direito, que suponho seja demasiado enfadonho estar aqui a enumerar. Mas se alguém estiver interessado…

Na segunda metade dos anos 80 li três livros que se não mudaram a minha vida, pelo menos moldaram o meu gosto literário para os anos seguintes: Danças em Família, do David Leavitt, Menos Que Zero, do Brett Easton Ellis, e As Mil Luzes de Nova Iorque, de Jay MacInnerney. O Leavitt continua a ser, ainda hoje, um dos autores a que sou fiel, com quem tenho uma relação literária, apesar de não gostar de tudo o que escreve, apesar de ter escrito mesmo alguns maus livros.

Depois disso, torna-se impossível falar em livros que mudaram a minha vida. Houve livros de que gostei imenso, livros que amei, livros que li e reli e sublinhei, livros que continuo a ler como se fossem a bíblia. Livros que me marcaram e marcam profundamente. Livros que desprezei numa determinada altura e pelos quais me apaixonei tempos depois. Livros que abandonei a meio (como o Mário me desafiou a enumerar, e aí vão dois: o Ulisses, de James Joyce e a Viagem ao Fim da Noite, de Céline). Livros que escolheria para levar para a ilha deserta, mesmo que não os fosse ler. Sim, porque há livros que nos são essenciais mesmo só pela companhia, para não nos sentirmos sozinhos perante a vida. Eventualmente até houve livros que sim, que mudaram a minha vida. Mas se isso aconteceu, foram mudanças lentas, um ramo novo que nasce aqui, uma folha seca que cai depois, uma fruta que cai ao chão e não será apanhada.